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Sami os indígenas europeus que tomam conta de renas

O artigo de Ioli Campos publicado na revista Pública em 24 de Dezembro de 2005.

Fotografia: Teuvo KanervaNa Lapónia, acima do círculo polar Árctico e do escritório do Pai Natal, encontra-se o único povo indígena do Norte da Europa. São os sami e continuam a criar renas, mas a modernidade fê-los alterar os seus estilos de vida.

Acendem uma fogueira à chuva e sentam-se na terra macia, forrada por vegetação rasteira. Esperam. Quanto tempo? Não sabem, porque para os sami, criadores de renas, o tempo passa de maneira diferente. Não há horários. O tempo deles é o tempo que a natureza lhes dá. Inga-Britta Magga, conselheira da associação dos criadores de renas, trouxe chá quente e umas bolachas que distribui pelos homens. Coloca a mochila e as luvas próximas da fogueira para secar. A chuva continua suave, mas persistente. Estão cerca de zero graus, uma temperatura normal para o início do Outono, nesta terra onde o termómetro chega a descer aos 50 negativos. Estamos na Lapónia finlandesa, acima do círculo polar Árctico, na terra dos sami, tribos indígenas que não apreciam o termo lapão por o considerarem colonialista.

Os sami eram um povo nómada que se dedicava à criação de renas na zona que é hoje atravessada por quatro países; Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia. Agora, adaptaram-se aos tempos modernos, alteraram profundamente os seus modos de vida e apenas continuam a viver como nómadas na parte russa. Antigamente, iam para as terras altas no Verão, onde estava mais fresco; e desciam para as pastagens do Sul no Inverno. Viviam em "kota" (tendas feitas com troncos, pele de rena ou lona, e com uma fogueira ao centro) e, mais tarde, em casas de madeira. No fim da Segunda Guerra Mundial, os alemães queimaram todas as casas, e os sami foram forçados a construir as suas habitações de novo. Hoje, continuam a viver em casas de madeira, coloridas de amarelo, vermelho e outras cores, mas já não precisam das tendas. Com a chegada dos novos meios de transporte, que lhes dão mais mobilidade na neve, deixaram de ter necessidade de acompanhar as renas ao longo do ano e deixam-nas em liberdade a maior parte do tempo.

No entanto, mantêm uma forte ligação com a natureza que os rodeia. Para eles, a ano começa na Primavera quando nascem as crias. No Verão, é tempo de trabalhar para o Inverno. Semeiam e colhem batatas. Vão para a floresta apanhar lenha e colher bagas pretas, azuis, vermelhas e amarelas, a única fonte de vitaminas na alimentação tradicional deste povo. É também no Verão, quando o Sol teima em não se esconder no horizonte, que estes pastores nórdicos se juntam em grandes grupos para reunir as renas. Agora, usam motos-quatro, cães e, por vezes, até helicópteros para procuras as renas e as fecharem entre cercas.

Fotografia: Hannu VallasO sistema finlandês encontra-se bastante regulado pela Associação de Criação de Renas, pelo Ministério da Agricultura e da Floresta e pela União Europeia. A Lapónia e outro distrito ligeiramente a sul estão divididos em 56 regiões e as renas são reunidas duas vezes por ano em cada uma destas zonas, excepto no Norte onde são reunidas uma única vez para não lhes causar demasiado stress. As áreas de criação de renas estendem-se por 114 mil km² só na Finlândia. No Verão, reúnem-nas para marcar as crias. A marcação é feita com cortes nas orelhas, cada família tem a sua marca e ceifa a orelha das suas renas. É uma actividade sangrenta e impressionante, que a maior parte dos criadores assegura não ser dolorosa. Durante esta época, os sami trocam os seus horários e dormem no período correspondente ao dia para trabalharem quando faz mais fresco. "É muito bonito o Sol e o silêncio. A natureza dorme, todos os pássaros estão calados e podemos ouvir o silêncio", descreve Armi Palonoja, dona de renas.

Quando todas as orelhas têm a respectiva marca, voltam a soltar as renas até ao final de Setembro, altura em que as têm de reunir novamente, mas desta vez para a matança. Apesar de as motas facilitarem o trabalho dos homens, esta tarefa ainda depende dos pastores e dos cães. E é com eles que nos encontramos neste momento, no cimo de uma colina à espera. É Outono, a floresta está silenciosa, o frio afastou quase todos os animais. Mas um rato castanho, minúsculo, mais pequeno que um quarto de uma mão adulta, brinca próximo da fogueira. Esperamos. A espera é parte fundamental deste trabalho. Os outros cães e motas correm pela floresta atrás das renas. Os animais vão sendo encurralados em círculos cada vez mais pequenos. À frente, vão os cães com os respectivos donos. Perseguem as renas com o olfacto. Atrás, permanecem de vigia os condutores de motas, para não as deixar fugir. Mais atrás ainda, dois pastores e um cão. O cão é o mais importante. Deve impedir a passagem de qualquer rena. Esta actividade pode durar duas ou três semanas, consoante o tamanho da região e as condições climatéricas. Como o trabalho não pode ser interrompido, os homens e os cães vão-se revezando até ao fim.

De repente, o cão começa a ladrar e, no meio da vegetação, que ostenta fortes tons amarelos e vermelhos, uma rena e uma cria correm. Vêm na nossa direcção, mas o cão começa a afugentá-las eficientemente. Correm muito rapidamente, fogem do cão até voltarem para dentro do círculo. E depois, a espera novamente. Inga-Britta e os dois pastores interrompem o silêncio. Falam numa língua sami, reprimida até ao início do século XX. Este povo foi oprimido ao longo da história, primeiro pela Igreja e depois pelo Estado. Mas actualmente têm um parlamento próprio nos três países mais a ocidente e os seus representantes reúnem-se num conselho internacional com líderes da parte russa.

Os "yoiks" e os "walkie-talkies"

Na Suécia e na Noruega, onde vivem a maior parte destas tribos indígenas, a criação de renas é um direito exclusivo deles. Mas na Finlândia têm de partilhar esta actividade com os finlandeses, que a começaram a exercer no século XVI, segundo o presidente da associação de criação de renas, Perti Viik. Contudo, a maior reivindicação do parlamento sami é a terra. Durante séculos, pagaram impostos a diferentes Estados mas depois da Segunda Guerra Mundial, as terras foram ocupadas e consideradas públicas com o argumento de que não havia nenhuma lei que os impedisse ("res nullium"). Pekka Aikio, presidente do parlamento sami, gostaria que fosse o parlamento a gerir os recursos naturais desta área, contudo 90 por cento dos terrenos são considerados públicos e geridos por uma empresa do Estado finlandês, a "Metsähallitus". O comité dos Direitos Humanos da ONU pediu à Finlândia a resolução destas disputas, que até agora têm impedido a ratificação da convenção sobre tribos e pessoas indígenas da Organização Internacional do Trabalho.

Poroerottelu. Fotografia: Teuvo KanervaSubitamente, ao fim de seis horas de espera, os pastores levantam-se e começam a mover-se para o próximo ponto de espera. As rodas da mota atravessam rapidamente, numa grande convulsão, pedras, riachos, troncos e colinas. A acção deste trabalho contrasta fortemente com a tranquilidade dos outros pastores. O forte ruído do motor e a agitação do movimento impede qualquer conversa com o condutor, que desvia constantemente a cabeça dos ramos pontiagudos. Canta "yoiks" sobre um cão-pastor. O "yoik" é uma forma de cantar tradicional dos sami. que consiste numa passagem ondulante de sons agudos em falsete para graves guturais. E, de repente, volta a parar. Não se vêem renas, mas avistam-se algumas das outras motas. Comunicam por "walkie-talkie" para saberem quando devem andar e quando têm de esperar. À medida que as renas avançam, vão fechando as vedações para as irem encurralando. A espera é depois, novamente, interrompida por um momento de grande agitação. Os corpos são violentados com os bruscos movimentos do veículo. Quando voltamos a parar contam histórias de condutores de moto-quatro que já morreram nestas actividades, mas não deixam de sorrir, inebriados com o prazer da acção. Quando o chão está forrado de neve, utilizam as motas de neve em vez destas quatro rodas.

Os punhais da Lapónia. Fotografia: Raija PöyhönenOs punhais da Lapónia. Fotografia: Raija Pöyhönen

Quando acabam, é a hora de morte. Escolhem as renas que consideram mais fracas e que teriam mais dificuldades em sobreviver ao Inverno e matam-nas. Antigamente matavam-nas na neve, mas desde a entrada da Finlândia na União Europeia foram impostos padrões de higiene que implicam a deslocação das renas em camiões até um matadouro próprio. Esta é uma alteração que veio trazer mais despesas, consideradas desnecessárias por muitos dos criadores, que vêm o frio como um entrave suficiente à disseminação de doenças.

Todas as partes da rena são usadas, excepto os tendões que outrora eram utilizados como linha de costura. A pele serve para fazer botas e agasalhos, as patas para uma sopa, os chifres são usados como adorno, a carne é fumada e seca. Continuam a fumar a carne da forma tradicional. Penduram-na no meio da "kota" por cima de uma fogueira, num processo que pode durar meses. Os finlandeses, no entanto, já não fazem da forma antiga. Costumavam fumar a carne, tal como o salmão, nas saunas. Mas passaram a usar fornos próprios. Todavia, a maior parte da carne é usada num estufado que acompanham com puré de batata e mirtilos vermelhos, um prato que está nas suas mesas quase todo o ano, especialmente no caso daqueles criadores que não têm outras fontes de rendimento e não têm dinheiro para comprar alimentos no supermercado. "A criação de renas não é forma de se fazer dinheiro, é uma economia de auto-subsistência" explica Pekka Aikio, presidente do parlamento sami na parte finlandesa. As dificuldades são grandes e afastam muitos dos jovens do sustento tradicional, ameaçando a continuação da sua cultura.

Loimulohi. Fotografia: Studio Fotoni OyÁ procura de outros rendimentos, muitas famílias são empurradas para o turismo, como os Palonoja. Primeiro, começaram por fazer excursões para a floresta com os turistas a pé, com trenós ou com motas de neve. Entretanto, como o negócio lhes corria bem construíram um pequeno restaurante e uma quinta onde mantêm renas em cativeiro. "Os turistas que vêm cá querem sempre saber como vivemos, pensam que ainda vivemos em tendas. Quando percebem que temos casas, televisões e "playstations" ficam desiludidos e riem-se muito, mesmo os finlandeses", diz Armi Palonoja enquanto dá ração às renas em alguidares azuis. A maior parte dos sami considera que as renas devem ser livres. Por isso, têm apenas três em cativeiro e deixam as outras em liberdade, mas não gostam de dizer quantas renas têm. "É como perguntar quanto recebemos". Para os sami, a terra é uma coisa viva e acreditam que apenas lhe podem retirar o que dela precisam. Por isso, nunca gostaram de dizer o número de renas que possuíam ou dos peixes que pescavam no Verão. Mas esse é outro aspecto que se alterou com o tempo. Com o sistema de criação de renas actual, todos sabem quantas renas têm. E hoje até se fazem competições e corridas, contradizendo os antigos princípios morais desta cultura.

Há 3000 mil renas por ano que morrem em acidentes de viação. 

Revontulet. Fotografia: Martti RikkonenCom o cheiro da ração, as renas aproximam-se de Armi, ansiosas pela refeição. Está a escurecer, as noites começam a ficar mais longas. Armi gosta da noite de Inverno, porque a considera muito tranquila. E não fica deprimida com a escuridão, porque a neve reflecte a luz das estrelas, da lua e das auroras boreais que, de quando em quando, enchem o céu com explosões de partículas, formando um bailado de cores brancas, verdes, e mais raramente rosas e laranjas. Armi até refere que no Inverno há uma hora por dia em que se pode ler o jornal no exterior com a luz do Sol que teima em não nascer durante dois meses.

Agora, as renas estão entretidas com os focinhos dentro dos alguidares. Uma delas luta consigo própria para chegar à comida porque os longos e felpudos chifres dificultam o acesso. No Inverno, não são só estas renas que têm de ser alimentadas, mas quase todas as renas selvagens. Há quem defenda que a falta de líquen, a comida das renas, se deve à poluição e ao abate de árvores para a indústria papeleira. Há quem acuse o turismo, mas já em Novembro o Governo finlandês decidiu interromper as actividades hoteleiras numa das áreas de pastagem, a conselho do Comité dos Direitos Humanos da ONU. Por outro lado, há quem aponte as mudanças climatéricas como o factor principal e há ainda quem acuse o número excessivo de renas que existem actualmente. Em 2004, o número máximo permitido era 203.700. Mas o problema pode não ser o número em si mesmo, mas o facto de explorarem toda a Lapónia em simultâneo. Quando eram nómadas, os sami respeitavam as migrações sazonais e os ciclos da natureza. Agora a flora não tem tempo para se restabelecer.

Fotografia: Matti TirriNo entanto, há outra ameaça, a estrada. Há 3000 renas por ano que morrem em acidentes de viação. As estradas não têm vedações para não limitar as pastagens, e junto das bermas cresce um tipo de musgo que elas apreciam muito, por isso cruzam as estradas com frequência e, por conseguinte, causam acidentes. Na verdade, a estrada é uma ameaça tão perigosa como as predadores. Os ursos, os lobos, os linces, os glutões e as águias matam mais de 2000 renas por ano em média.

O Estado providencia subsídios nesses casos, mas exige a apresentação do cadáver. Contudo, na maior parte das situações o corpo desaparece antes de o dono ter tempo de o encontrar. Perti Viik, director da associação de criadores de renas, relembra a história do lobo que este ano terá morto 60 a 80 renas. No fim, só encontraram 28 cadáveres. Num dado momento, chegaram a fazer buscas de helicóptero e encontraram cinco, mas quando as pessoas se acercaram por terra para os resgatar restava apenas um. Os outros já tinham sido totalmente devorados. Por fim, receberam autorização do Governo para matar o lobo. Mas como é que sabiam que lobo matar? "Havia apenas um naquela zona", esclarece Perti Viik. Será de temer o abate ilegal de animais selvagens" " É muito raro acontecer algo ilegal na Finlândia, no passado já aconteceu as pessoas ficarem zangadas. Mas é muito raro.

"Kuksa", uma caneca de madeira. Fotografia: Raija Pöyhönen"Kuksa", uma caneca de madeira. Fotografia: Raija Pöyhönen

Armi Palonoja voltou para casa. Está na cozinha a preparar bolos de aniversário para vender, enquanto espera pelo marido e pela filha, que passaram o dia na floresta a colher lenha para o Inverno. Antigamente a criação de renas era um trabalho de homens e a casa um trabalho feminino. Mas hoje há algumas mulheres que começam a tomar conta das suas renas, apesar de a floresta continuar a ser sobretudo um espaço masculino. Armi está cansada. Senta-se e faz uma pausa para contar uma história sobre renas.

"Era uma vez um sami que estava a ir das colinas para o lago e se cruzou com um elfo." Na cultura sami há três dimensões; os deuses, os humanos e os elfos, criaturas pequenas como anões que vivem debaixo da terra. "Os elfos têm muitas renas e o pastor perguntou a um porque tinha tantas renas. Então, o elfo disse-lhe que lhe dava todas e marcou um risco no chão com a sua faca. A única condição era o homem deixar uma rena cada vez que passasse por aquele risco. Então, sempre que o homem ia do lago para as colinas e das colinas para o lago deixava-lhe uma rena como combinado, apesar de os filhos insistirem para ele não deixar. Um dia, o homem estava muito velho e cansado e não conseguiu ir para as colinas. Era altura dos filhos tomarem conta das renas. Mas ao passarem pelo risco não deixaram nenhuma rena e não aconteceu nada. Passadas algumas estações, quando iam do lago para as colinas as renas fugiram todas e tiveram de pedir ajuda à população para as encontarem. Quando as descobriram repararam que estavam estranhamente todas juntas no sítio onde o pai fazia a oferenda. Mas estavam mortas".

Museu dos sami, em Inari, e o centro da natureza da Lapónia Norte (Upper Lappland). Fotografia: Matti SilvennoinenMuseu dos sami, em Inari, e o centro da natureza da Lapónia Norte (Upper Lappland). Fotografia: Matti Silvennoinen

Hoje teme-se que a cultura deste povo indígena possa estar ameaçada, mas há os que defendem que está a renascer. Já têm escolas, livros, uma bandeira e um hino sami, mas, no que diz respeito à criação de renas, persistem por concretizar muitas das reivindicações do parlamento sami. Ao contrário da Suécia e da Noruega, a criação de renas na Finlândia continua a não ser um direito exclusivo destas tribos e a terra continua a ser maioritariamente possuída pelo Estado finlandês.

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actualizados 22-09-2011


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