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O Marechal Mannerheim da Finlândia em Portugal em 1945 - por motivos de saúde ou de segurança?

Escrita pelo Sr. Matti Häkkänen, Embaixador da Finlândia em Portugal nos anos 1997-2001. Tradução: Dr. Mika Palo

Públicado na revista Suomen Kuvalehti; 15-16/8.4.2004

MannerheimSegundo os recém-publicados diários de 1958-1962 do antigo presidente da república da Finlândia, Urho Kekkonen, o Major-General Ragnar Grönvall contou-lhe o seguinte em 5 de Maio de 1960: “Regressado de Portugal, Mannerheim temia que ele poderia ficar preso pelos russos. Como Göring, ele tinha consigo uma cápsula de veneno pronta.” O Presidente Kekkonen tinha sublinhado com tinta vermelha as palavras “cápsula de veneno”.
Durante quase sete anos, entre 1939 e 1946, Grönvall tinha sido o ajudante-de-ordens do Marechal Mannerheim, o qual também foi presidente da república nos anos 1944-1946. Posteriormente, Grönvall serviu como ajudante-de-ordens dos dois seguintes presidentes da república, J.K. Paasikivi e Kekkonen, entre 1946 e 1962. Os companheiros de viagem do Marechal em Portugal nos meses de Novembro e Dezembro do difícil ano de 1945 eram Lauri Kalaja, o médico pessoal dele, e o então Coronel Grönvall. Quando o velho e experiente ajudante-de-ordens afirma assim ao presidente da república mesmo antes de se reformar, não há razão para desconfiar que ele esteja a mentir.

Tentativas de visitar Portugal

Ao longo da sua vida Mannerheim fez três tentativas de visitar Portugal. Apenas a terceira tentativa teve êxito. Em Abril de 1923 ele tinha já reservado um quarto para duas noites no Avenida Palace de Lisboa. Mannerheim pretendia viajar de barco de Casablanca a Portugal, onde o Benz que ele acabara de comprar na Suíça estaria à espera dele com o seu chofer e o levaria a Madrid. Há pouco tempo Georg Gripenberg, o irmão do cunhado de Mannerheim, tinha sido nomeado o encarregado de negócios da Finlândia em Madrid. Porém, enquanto conduzia rumo a Marrocos, Mannerheim teve um grave acidente de viação na Argélia, despistando-se a uma vala, possivelmente na companhia da bela condessa francesa Jeanne de Salvert. Mannerheim teve que ficar dois meses num hospital argelino e Gripenberg cancelou a reserva do hotel em Lisboa.

No Verão de 1934 o recém-promovido Marechal decidiu, após a vindoura viagem à Alemanha, passar o Natal num transatlântico e chegou mesmo a fazer uma reserva de camarote de Hamburgo a Lisboa. Foi ele próprio que depois cancelou a reserva, sobretudo porque não tinha tempo disponível. Contudo, numa carta à sua irmã Eva Sparre ele acrescentou: “Se alguém quiser, como eu, viajar sem renunciar a tudo que faz a vida confortável e agradável, mas ao mesmo tempo souber que no seu bolso apenas há pó – pois o marco finlandês quase não é outra coisa – é difícil passar muito tempo no estrangeiro.”

A terceira tentativa de Mannerheim resultou bem, mas também nessa altura foi-lhe difícil ficar muito tempo no estrangeiro. No dia 2 de Outubro de 1945 o médico pessoal do Marechal visitou o Primeiro-Ministro Paasikivi para entregar um atestado médico, segundo o qual Mannerheim devia, por causa de uma doença pulmonar, passar um mês num clima mais austral. O médico Kalaja especificou oralmente que o destino pretendido era Portugal. Talvez para despachar o assunto Kalaja acrescentou que Mannerheim achava que o Primeiro-Ministro Paasikivi seria um excelente sucessor dele à presidência da república. Paasikivi disse imediatamente a Kalaja que o governo não se pode opor a um plano de viagem deste género.

O Verão das ameaças de 1945

A saúde agravada do Marechal, já com 78 anos de idade, tinha sido duramente afectada no Verão de 1945 pelo processo do esconder de armas. O Tenente-Coronel U.S. Haahti e o Coronel Valo Nihtilä, os acusados centrais, ficaram presos no início de Junho e Aksel Airo, o Chefe do Estado-Maior, no fim de Junho. Erik Heinrichs, o Chefe do Estado-Maior General das Forças de Defesa, foi despedido do seu cargo em Agosto.Em Setembro já estavam detidos 500 suspeitos de esconder armas. 

Também o processo da culpabilidade pela guerra tornou-se mais ameaçador quando o General Zhdanov regressou de Moscovo a Helsínquia em Junho com as novas instruções de Estaline e falou severamente com o Ministro da Justiça Kekkonen. Segundo um memorando da Comissão de Vigilância dos Aliados, Kekkonen disse concordar completamente com as opiniões do General Zhdanov, o qual “tinha boas intenções para com a Finlândia”, e Kekkonen prometeu apoiá-las no Governo como se fossem suas próprias opiniões. Assim também aconteceu. O Presidente Mannerheim e o Primeiro-Ministro Paasikivi cederam à promulgação da proposta de lei retroactiva sobre os “culpáveis de guerra” em Agosto. O parlamento aprovou a lei no início de Setembro e Paasikivi ratificou a lei enquanto o presidente estava impedido, ou seja, doente em meados de Setembro. “Um assunto horrendo que pesa como uma montanha” foi o comentário de Paasikivi acerca da lei sobre a culpabilidade pela guerra. Segundo essa lei as acusações contra os interessados tinham que ser apresentadas até 31 de Dezembro de 1945.

No fim de Setembro o Ministro da Justiça Kekkonen, regressado da sua primeira viagem a Moscovo, veio contar ao Primeiro-Ministro Paasikivi que achava que Mannerheim deveria renunciar à presidência da república. Em Moscovo o mesmo também tinha sido dito por Otto Ville Kuusinen, um exilado líder comunista finlandês. O novo presidente finlandês deveria ser Paasikivi, continuou Kekkonen. Paasikivi respondeu que ele já tinha mencionado a Mannerheim que Kekkonen e Pekkala poderiam ser os futuros sucessores dele. Kekkonen considerava que Mauno Pekkala não levaria a mal mesmo que ficasse deixado de lado nesta competição. Kekkonen visitou Paasikivi novamente no dia 6 de Outubro de 1945, ou seja, um pouco depois da visita do médico Kalaja. Foi então que Paasikivi leu a Kekkonen a carta de Kalaja acerca da doença de Mannerheim. Kekkonen reagiu dizendo que Mannerheim deveria partir depressa para o estrangeiro e ficar lá até ao fim do ano. Na opinião dele seria difícil para o Marechal continuar a ser presidente após a divulgação pública das acusações sobre a culpabilidade pela guerra. Kekkonen contou que o presidente da comissão de investigadores da culpabilidade pela guerra, o Conselheiro da Justiça Petäys, tinha dito que o ex-presidente da república Ryti era o culpado pela guerra número 1 e Mannerheim era o número 1 A.

A autorização para viajar demora

O Tenente-General em Odessa em 1917.No dia 8 de Outubro de 1945 Paasikivi apresentou ao Governo a declaração do médico Kalaja sobre o estado de saúde de Mannerheim e o plano de viagem a Portugal. Paasikivi considerou que a recomendação do atestado médico era para cumprir. O Governo todo calou-se. Dois dias depois o doutor Kalaja disse a Paasikivi que Mannerheim estava disposto a viajar a Portugal à custa dele próprio, mas considerava que o estado deveria pagar as despesas das viagens do médico e do ajudante-de-ordens. O primeiro-ministro aconselhou que Kalaja falasse com o Ministro da Defesa Pekkala e também aproveitou para dizer que seria bom se Mannerheim partisse depressa e ficasse fora, para que se pudesse entretanto tratar da questão da culpabilidade pela guerra sem a presença de Mannerheim no país.

No dia 12 de Outubro Kekkonen visitou Paasikivi novamente. Kekkonen já tinha mudado a sua posição e agora considerou que afinal Mannerheim não deveria partir para o estrangeiro mas antes demitir-se imediatamente. Paasikivi travou esse raciocínio dizendo que não se devia tratar do assunto de tal maneira que o povo logo diria que o Governo expulsara o Marechal.

Em 18 de Outubro chegou a vez de Mannerheim para mudar de opinião. Ele telefonou a Paasikivi dizendo que, apesar da recomendação dos seus médicos, ele não podia partir para o estrangeiro, pois isso poderia ser considerado como evasão. Isto era assim especialmente porque o relatório sobre a culpabilidade pela guerra da comissão do Conselheiro da Justiça Petäys, o qual Mannerheim acabara de ler, parecia culpar o comandante supremo das Forças de Defesa, ou seja, o próprio Mannerheim.

No entanto, na reunião vespertina do Governo em 22 de Outubro, na ausência de Paasikivi, o Ministro da Justiça Kekkonen recusou de recomendar que Mannerheim fosse acusado. É provável que Kekkonen tenha contado isso ao Marechal, o qual começou então de novo a fazer as suas malas para a viagem a Portugal. O motivo de Kekkonen foi provavelmente o mesmo que Juhani Suomi apresenta na sua biografia de Kekkonen (“Vonkamies”), ou seja, o já nessa altura baixo moral da nação não teria aguentado a inclusão de Mannerheim no processo sobre a culpabilidade pela guerra. Além disso, Kekkonen sabia bem que Zhdanov, o presidente soviético da Comissão de Vigilância dos Aliados em Helsínquia, calava-se acerca do Marechal. A atitude de então de Kekkonen em relação à presidência de Mannerheim é ilustrada pela sua asserção na reunião vespertina: “Apesar do presidente viajar para o estrangeiro sendo presidente, ele não regressará de lá como presidente.”

Durante o mês de Outubro Mannerheim telefonou várias vezes a Estocolmo ao seu amigo, o Embaixador Gripenberg, explicando os seus planos de viagem. É provável que a luz verde final tenha sido dada em 26 de Outubro, pois foi no fim da tarde desse dia que o encarregado de negócios de Portugal em Estocolmo enviou o seguinte telegrama secreto a Lisboa ao Presidente do Conselho de Ministros Salazar:

“197 – Confidencialíssimo e urgentíssimo – Acabo de falar com o Ministro da Finlândia que me procurou na Legação. Disse-me confidencialmente que o Presidente da República Marechal da Finlândia barão Mannerheim desejaria partir para Portugal na semana próxima acompanhado de um ajudante de campo e de seu médico assistente, se o Governo português nenhuma objecção tivesse a opor a este projecto. Deveria evitar qualquer publicidade recomendou Presidente da República permaneceria 3 meses, de preferência no Algarve, para tratamento da sua saúde muito abalada. Aguardo instruções de V. Exa. sobre o assunto. Aires” (Telegrama recebido da Legação de Portugal em Estocolmo, 27/10/1945)

TelegramaO Ministério dos Negócios Estrangeiros em Lisboa não se demorou mas respondeu já no dia seguinte:

“125 Confidencial. Resposta a 197 nenhuma objecção com o maior prazer se darão todas facilidades e evitar-se-á publicidade só não podendo garantir-se que agentes estrangeiros não enviem algum telegrama. Deve comunicar pormenores que saiba e dizer desejávamos ser informados tudo o que nos ajude facilitar viagem e permanência agradável. Ministro” (Telegrama expedido para a Legação de Portugal em Estocolmo, 27/10/1945)

O Governo da Finlândia solicitou ainda a Eero A. Wuori, o qual fora transferido do posto de ministro de transportes para representante político em Londres, para tentar apressar a demissão de Mannerheim. Em 29 de Outubro Wuori visitou Kaivopuisto (o bairro onde Mannerheim residia) e aconselhou ao Marechal – que se encontrava sentado na sua cama – para se demitir do seu cargo sob a ameaça da culpabilidade pela guerra, “o que provavelmente seria o melhor tanto para o país como para o próprio presidente”. Mannerheim enfureceu-se e disse em voz alta que ele não precisava de quaisquer conselhos do Senhor Wuori neste assunto. Paasikivi não menciona no seu diário o encontro de Wuori com Mannerheim, mas diz ter informado no dia 30 de Outubro ao Conselho de Estado que o Marechal iria partir para Portugal no domingo, 4 de Novembro.

Por sua parte, o Marechal escreveu em 29 de Outubro, provavelmente antes da visita de Wuori, para Estocolmo à sua irmã Eva Sparre:
“Agora descobriu-se a causa da minha saúde fraca. O minucioso exame radioscópico, realizado no Hospital da Cruz Vermelha, concluiu claramente que as minhas dores convulsas não eram causadas por cancro, como temia, mas por uma pequena úlcera gástrica – visto que Kalaja em todo caso acha que para recuperar eu deveria viajar a algum lugar solarengo que proporcione sossego tanto ao corpo como à alma, estou preparando-me para partir para um pequeno lugar no Sul de Portugal chamado Praia da Rocha. Fica a sul de Lisboa, de onde a viagem até lá demora poucas horas. Não se trata de nenhum lugar com fama internacional, mas o clima cálido parece africano e lá existe pelo menos um hotel confortável. Desde que não surja nenhum impedimento, partirei daqui no próximo domingo, 4/11/45, chegarei à Embaixada da Finlândia em Estocolmo em 5/11 e na terça-feira 6/11 seguirei de avião, tudo isto dependendo da disponibilidade de bilhetes de avião. Por enquanto isto não é de conhecimento geral, mas não deve demorar muito até que seja “secret de polichinelle” (um segredo público).”

A notícia espalhou-se ao grande público quando o jornal Helsingin Sanomat publicou no sábado, 3 de Novembro de 1945, em três colunas e com uma fotografia civil do Marechal o seguinte comunicado da Chancelaria da Presidência da República:

“O Presidente da República para recuperar no estrangeiro. A saúde do Presidente da República tem estado abalada nos últimos tempos e recentemente tem evoluído de tal maneira que o seu médico considerou indispensável uma estadia dele no estrangeiro durante algum tempo, num clima propício à sua recuperação. Por isso, nos próximos dias o Presidente partirá na companhia do seu médico para a referida viagem. Durante a viagem as funções do Presidente da República serão assumidas pelo Primeiro-Ministro Paasikivi.”

Comissão de Vigilância dos Aliados se despertou

Foi então que o General Andei Zhdanov se despertou. Ainda num relatório enviado a Estaline em 23 de Outubro do Hotel Torni (o quartel-general da Comissão de Vigilância dos Aliados na Finlândia) Zhdanov pensava que Mannerheim desistira do seu plano de viagem. Já perto do meio-dia o embaixador soviético Pavel Orlov estranhou-se e perguntou ao Ministro de Defesa Mauno Pekkala porquê é que Mannerheim iria viajar a Portugal e não por exemplo à Crimeia ou ao Cáucaso. De imediato Pekkala informou Mannerheim desta conversa. A seguir, Mannerheim telefonou ao Primeiro-Ministro Paasikivi. Segundo o diário de Paasikivi Mannerheim disse:
“Talvez isso teria sido prudente, mas agora é tarde.” Paasikivi visitou Mannerheim durante a tarde, enquanto o Marechal continuava a preparar-se para partir no barco da manhã seguinte rumo a Estocolmo e Portugal. No fim da tarde Zhdanov solicitou que Paasikivi viesse falar com ele às 20 horas. Paasikivi cumpriu o pedido e então Zhdanov disse-lhe irritadamente que ficara a saber apenas agora – bastante tarde – através do jornal que Mannerheim iria partir para o estrangeiro. “É um assunto sério.”  

Aonde e como viajará Mannerheim? “A Finlândia não é um país livre nas suas relações internacionais, pois na Finlândia há condições especiais.” No entanto, Zhdanov ainda não conseguia dizer qual era a posição da suprema liderança soviética em relação ao plano de viagem de Mannerheim, mas considerou que a viagem nunca poderia ser apenas um assunto privado.

O General Zhdanov solicitou que Paasikivi contasse isto a Mannerheim, o qual deveria adiar a sua viagem até que a União Soviética decida qual a sua posição. Paasikivi informou Zhdanov do estado da saúde do Marechal e da legislação finlandesa. “Tenho investigado o assunto com o chanceler da justiça e segundo as leis e os acordos o Presidente Mannerheim não pode ser impedido de viajar. Isso apenas pode ficar impedido com medidas forçadas. Para o Marechal é muito desagradável adiar a viagem que deveria começar amanhã de manhã, mas porque a União Soviética assim quer, informar-lhe-ei da Vossa mensagem.”

Paasikivi foi visitar Mannerheim no bairro de Kaivopuisto e contou-lhe que por enquanto Zhdanov tinha proibido a viagem a Portugal. Que pena, disse Mannerheim e mandou o seu ajudante-de-ordens a cancelar os bilhetes de barco. Ficou combinado que Paasikivi contaria a Zhdanov que o presidente iria adiar a sua viagem por causa do pedido de Moscovo, mas isso é muito desagradável e Mannerheim espera poder realizar a sua viagem tão depressa que possível. Com este recado Paasikivi visitou novamente Zhdanov, o qual então disse ter recebido há cinco minutos “boas notícias” de Moscovo. Por isso, afinal Mannerheim podia seguir em viagem logo na manhã seguinte. Paasikivi acelerou para contar a boa nova de Zhdanov ao Marechal que entretanto já se tinha deitado. O Marechal ficou contente e mandou os ajudantes a reconfirmar o seu bilhete de barco.

Porquê é que Estaline deu a luz verde para a viagem de Mannerheim a Portugal? Provavelmente porque respeitava o seu duro adversário e ao mesmo tempo precisava dele ainda durante algum tempo, assim como o General MacArthur precisava do imperador do Japão. Nesta fase era necessário manter alguma estabilidade na Finlândia, principalmente por causa das indemnizações de guerra. Ademais, ao contrário de Zhdanov, Estaline não estivera em Leningrado durante o cerco alemão mas lembrava bem que Mannerheim não se aderira a esse projecto alemão. Por outro lado, Paasikivi, um político já conhecido pelo Kremlin, estava na fila para suceder a Mannerheim na presidência da república.

As execuções dos que perderam a guerra, já tinham começado

Na manhã de domingo, 4 de Novembro, Mannerheim deslocou-se ao navio Wellamo bem antes da hora da partida, despedindo-se das escoltas oficiais, ou seja, do Primeiro-Ministro Paasikivi, do Ministro dos Negócios Estrangeiros Enckell e do Senhor Figueiredo, o Embaixador do Brasil que representava a comunidade diplomática. O Embaixador da Suécia em Helsínquia, Senhor Beck-Friis, não parece ter estado entre as escoltas, facto que talvez pretendia dar ênfase ao carácter inteiramente privado da viagem. O Marechal foi escoltado ao melhor camarote de Wellamo provavelmente por Henrik Ramsay, o director geral da companhia de navegação. Ramsay também foi o ministro dos negócios estrangeiros da Finlândia nos anos de guerra de 1943 a 1944. Ainda bastante tarde na noite anterior o Marechal tinha telefonado a Karin, a elegante esposa do Dr. Ramsay, para confirmar que ia embarcar no Wellamo de manhã. Esta escolta foi uma das últimas tarefas profissionais do Dr. Ramsay, pois passados dois dias ele ficou preso com os outros “culpáveis de guerra”.

O Marechal passou a viagem de um dia no navio Wellamo dentro do seu camarote, visitando a ponte apenas uma vez. Certamente Mannerheim pensava na situação de então da Finlândia e da Europa. Há uma semana antes o embaixador finlandês G.A. Gripenberg anotara no seu diário em Estocolmo que ao telefone o Marechal parecia aliviado por ter a oportunidade de sair da Finlândia para o sossego e o calor. Na opinião de Gripenberg o Marechal certamente estava preocupado e deprimido por causa do processo da culpabilidade pela guerra que acabara de começar.
“Porém, ele está verdadeiramente doente e, sendo assim, não se pode dizer que ele apenas tenha fugido por motivos políticos. No entanto, é isso que talvez será dito em todo caso.”

Quanto à posição da Finlândia, desde a paz interina de Setembro de 1944 Mannerheim nunca fora optimista. Nessa altura ele disse ao ex-Ministro das Finanças Väinö Tanner que era pouco provável que a Finlândia consiga evitar a bolchevização. Numa conversa com Paasikivi no início de Outubro de 1944 Mannerheim disse que no futuro ele próprio talvez ficaria preso e morto pelos russos. Paasikivi tentou confortar o seu anfitrião de jantar e disse: “Julgo que os russos de facto não gostam do Presidente da República, mas que o aturam, pois eles compreendem que ele é indispensável na Finlândia agora.” 

Já no fim de Outubro de 1944 Mannerheim enviara uma parte do seu arquivo aos seus parentes na Suécia e ordenara que apenas em 1994 os documentos poderiam ser entregues ao arquivo nacional de uma Finlândia independente (Mannerheim sublinhara esta palavra). “No entanto, se o bolchevismo teria ganho influência na liderança do país e a independência seria apenas uma sombra, os papéis ficariam na Suécia...” escreveu o Marechal. Já em Março de 1885, quando Mannerheim sofria uma punição disciplinar, ele escrevera da Escola de Cadetes de Hamina ao seu irmão Carl: “Agora já tenho passado todo este semestre preso e trancado por dentro e isto continuará pelo menos ate ao Verão.Quem nunca passou cinco meses num calabouço nem consegue imaginar como isso é desmoralizante e totalmente nocivo.”

No camarote do navio Wellamo Mannerheim também poderá ter pensado nas notícias recentes: Vidkun Quisling, o líder nazi da Noruega, fora executado há dez dias, assim como também Pierre Laval, o ex-primeiro-ministro francês. O Marechal Ion Antonescu, o seu colega romeno, já passava o segundo ano dele estando preso em Moscovo a aguardar a sua certíssima sentença de morte. O Marechal Philippe Pétain, o antigo chefe de Estado francês, fora condenado à morte em Agosto de 1945, mas De Gaulle amnistiara-o e mudara a sentença em prisão perpétua. A primeira sessão do processo da culpabilidade pela guerra de Nuremberga tivera lugar em Berlim há duas semanas sob a presidência do general soviético Nikitchenko. Os antigos primeiros-ministros da Hungria aguardavam as suas execuções que aconteceriam em Janeiro e Fevereiro de 1946, enquanto o ex-chefe de Estado húngaro, o Almirante Miklós Horthy, era prisioneiro dos americanos na Bavária, de onde ele depois conseguiu chegar a Portugal.

O ajudante mais jovem de então do Marechal, hoje em dia Coronel Rafael Bäckman com 92 anos de idade, não chegou a acompanhá-lo na viagem. No entanto, Bäckman recorda-se de que Portugal era o destino de Mannerheim porque havia poucos outros lugares aceitáveis na Europa com um clima benigno. “Portugal ficou escolhido tanto por motivos climatéricos como por motivos políticos e Mannerheim estava claramente aliviado por conseguir ausentar-se da Finlândia durante algum tempo.” 

A Espanha estava sob o poder de Francisco Franco e em Junho de 1945 Georg Winckelmann, o Embaixador da Finlândia em Madrid, fora retirado para disponibilidade em Helsínquia. Na Suíça, onde o Marechal se sentira à vontade nas suas férias de recuperação em Abril de 1943, estava demasiado fresco. A França, a Itália e a Grécia ainda se encontravam em mau estado como consequência da guerra. Não é acreditável que o Marechal teria tido saudades da Crimeia ou do Cáucaso, ambos territórios soviéticos, pois ele poderia lembrar-se de novo da situação do seu colega romeno Antonescu. O antigo ajudante Bäckman ainda se recorda das palavras de então do Coronel Grönvall: “A Crimeia não convem nesta situação.” 

O Portugal neutral com o seu Algarve ameno pareciam convir. Pode ser que o Embaixador Gripenberg, o qual passou um par de meses como encarregado de negócios em Portugal em 1923, se tenha lembrado do Algarve e da Praia da Rocha e terá mencionado esses lugares nas suas conversas telefónicas com Mannerheim na altura das preparações para a viagem. Na opinião do médico Kalaja o Algarve provavelmente correspondia às exigências médicas da essa época, a não falar do bom clima.

O Marechal foi o primeiro a desembaracar do navio em Estocolmo. Fotografia: SKOYNa manhã da segunda-feira, 5 de Novembro de 1945, o navio Wellamo chegou ao cais de Skeppsbro em Estocolmo. Mannerheim foi o primeiro a desembarcar do navio. Ele foi recebido pelo Embaixador Gripenberg e pelo Adido Militar, Coronel Hans Olof von Essen

No seu diário Gripenberg fala sobre as ocorrências desse dia: “Acho que Mannerheim não envelhecera, mas parecia cansado. Ele parecia estar bem disposto. Que alívio deve ter sido para ele poder ausentar-se das preocupações quotidianas e da Finlândia...Ele proferiu graves dúvidas quanto ao futuro; é difícil evitar a impressão que a Rússia, devagar mas certamente, pretende exercer um poder cada vez maior na Finlândia, e que o estado de tensão entre a Rússia e os poderes ocidentais apenas nos trará mais perigos. Mannerheim fumou um charuto, mas por causa da sua úlcera gástrica não tomou conhaque nem uísque. Dormir às 10, despertar às cinco e meia! Às sete café e ovos cozidos. Às oito menos um quarto conduzimos a Bromma e às 8h20 partiu o avião. Quando voltarei a ver Mannerheim?” 
Gripenberg apenas voltou a ver o Marechal em Janeiro no Hospital da Cruz Vermelha no bairro de Töölö em Helsínquia, pois o embaixador estava nos Estados Unidos para ver a sua esposa quando Mannerheim na passagem do ano regressou para Helsínquia por Estocolmo.

Já na mesma segunda-feira, 5 de Novembro, o encarregado de negócios de Portugal em Estocolmo enviou um novo telegrama secreto a Lisboa, relatando informações sobre o horário de Mannerheim de Paris para frente e também dizendo:

“Ministro Finlândia não formulou propriamente pedido mas insinuou Presidente ficaria muito reconhecido se Governo português puzesse à sua disposição vagão especial percurso português e não escondeu que Ministro de Espanha telegrafou seu Governo sugerindo igual maneira facilidade percurso espanhol. Presidente da República ficará Hotel Palácio Estoril 2 dias ou 3 e desejaria lhe reservassem quartos Hotel Praia da Rocha. Aires” (Telegrama recebido da Legação de Portugal em Estocolmo 6/11/1945)

Dois dias antes o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal já telegrafara à sua embaixada em Madrid:

“Confidencial urgente – Presidente República Finlândia Marechal Mannerheim manifestou desejo passar algum tempo Portugal ao que Governo respondeu nenhuma objecção havia e que concederia todas facilidades. Devido ausência Legação Finlândia aqui sirva-se V. Sra. com toda a possível urgência procurar obter junto Ministro Finlândia Madrid todos elementos que me habilitem conhecer mais ampliamente desejos Marechal e conceder facilidades necessárias para sua realização. Legação de Portugal Estocolmo informou chegada Marechal dia 8 Novembro corrente. Deve ser evitada toda publicidade este assunto. Ministro” (Telegrama expedido para a Embaixada de Portugal em Madrid, 3/11/1945)

Por sua vez, a Embaixada da Finlândia em Madrid, à qual faltara o embaixador já durante meio ano, telegrafou com alguma inquietação a Helsínquia em 5 de Novembro:

“A Embaixada de Portugal aqui indaga por solicitação do seu Governo como, exactamente por que percurso, quando o Marechal chegará para facilitar as medidas práticas da viagem, igualmente se viajará da Espanha. Por favor informem se o Marechal renunciou à Presidência ou se estará de férias até recuperar. Por favor enviem um telegrama expresso.”

O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Finlândia, ou seja, o Chefe do Departamento Político Asko Ivalo, respondeu no dia 7 de Novembro:
“Parte hoje de comboio de Paris. Autoridades de Portugal e Espanha foram contactadas em Estocolmo. Não renunciou mas por enquanto não exerce as funções do Presidente.”

Os culpados da guerra são presos

O jornal Helsingin Sanomat do mesmo dia chamou atenção com um título ocupando cinco colunas e com as fotografias de todos os interessados: “Oito acusados de guerra. Ontem o Governo determinou processar Ryti, Rangell, Linkomies, Ramsay, Tanner, Kukkonen, Reinikka e Kivimäki. Os réus foram ordenados presos de imediato.” Apenas um faltava do grupo dos réus. Ao lado direito no fundo da mesma página havia uma pequena notícia: “Viagem do Presidente da República. Ontem de avião de Estocolmo a Paris. O Marechal voou às 8h15 num avião de ABA a Paris.”

De Paris o Marechal viajou de comboio à fronteira espanhola em Irún. “A organização era má nos caminhos-de-ferro franceses, assim como também a comida em Paris” comentou o Marechal ao Major Bäckman, o seu ajudante mais jovem, depois de ter regressado para Finlandia no início de Janeiro de 1946. 
No lado da Espanha a organização melhorou. O vagão de salão de Primo de Rivera, o ditador espanhol dos anos 1920, e o governador da província estavam à espera de Mannerheim na fronteira. Em São Sebastião comeu-se “um almoço magnífico e no comboio um jantar excelente”, Mannerheim escreveu à sua irmã Eva Sparre. O maquinista era o Marquês de Saragoça, cujo passatempo eram os comboios.
Em Madrid Mannerheim discretamente recusou a oferecida visita de cortesia a Franco. 
O Marechal disse à sua irmã: “Quase tive que recorrer à violência para poder continuar a minha viagem no mesmo dia de avião e recusar, por razões políticas, um programa de dois dias com excursões a várias localidades enquanto se esperava um comboio rápido directo.” Os grandes preparativos dos portugueses para com o vagão de comboio foram em vão.

O Ajudante-de-Orders do Presidente, Carvalho Nunes e Chefe do Protocolo do MNE, Henrique Vianna com Marechal no Aeroporto de Lisboa. Fotografia: LehtikuvaNo dia 9 de Novembro de 1945 Mannerheim voou de Madrid num avião civil espanhol e aterrou no aeroporto de Lisboa. O jornal Helsingin Sanomat relatou mal, confiando nas informações erradas da agência Reuters, que ele foi recebido pelo Presidente Oscar Carmona e pelo Presidente do Conselho de Ministros Salazar. No entanto, segundo o arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal quem foi ao encontro do Marechal eram o ajudante-de-ordens do Presidente Carmona, Capitão Carvalho Nunes, o Chefe de Protocolo do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Henrique Vianna, e o Cônsul Honorário da Finlândia em Lisboa, Otto Wang

No dia seguinte a imprensa lisboeta publicou uma fotografia em que o elegante Mannerheim está a descer as escadas do aeroporto, vestido de fato escuro e com o seu chapéu de feltro um pouco inclinado. Ele leva uma bengala na mão e uma capa de chuva num braço. Quem aparece ao seu lado direito é o Chefe de Protocolo Vianna e ao esquerdo vê-se o Capitão Carvalho. Por trás ficam o médico Kalaja e o ajudante-de-ordens Grönvall. Do aeroporto Mannerheim deslocou-se de carro directamente ao Hotel Palácio em Estoril, onde ele ficou alojado na suíte número 210 do segundo piso.

Em Estoril o Marechal descansou durante três dias. No dia 13 de Novembro, às nove e meia da manhã, o carro da marca Austin, disponibilizado por Salazar, veio buscar a comitiva do hotel e a viagem para o Algarve começou. Houve um almoço leve na pousada de Santiago do Cacém e no fim da tarde a comitiva chegou a Praia da Rocha. Já estava escuro quando o Marechal subiu ao quarto número 108 do primeiro piso do Hotel Bela Vista.

O Marechal perde a paciência

Em Portugal em outonho de 1945Na Praia da Rocha Mannerheim foi recebido por uma tempestade atlântica de Outono que demorou uma semana. Numa carta datada em 30 de Janeiro de 1946 à sua amiga Andrée von Nottbeck o Marechal descreveu essa tempestade:
“Era impressionante e lindíssimo para ver, mas por fim fartei-me daquilo, pois estava frio e húmido, a chuva penetrava para dentro pelas janelas e na casa de banho era difícil encontrar um ponto seco onde se pudesse ficar em pé – havia água por todo o lado.Porém, a nossa paciência ficou recompensada: três semanas sempre com sol sem uma única gota de chuva. Isso fez-me muito bem.”

O Marechal não mencionou nada a Andrée von Nottbeck dos problemas que tinha com o correio, mas já no seu segundo dia no Algarve ele telegrafou ao Embaixador Gripenberg a Estocolmo: “Cheguei bem a Praia da Rocha. Grato por notícias. Mannerheim.” 
Gripenberg respondeu imediatamente com uma longa carta em que ele relatou uma proposta de Eero A. Wuori, o representante político do Governo finlandês em Londres, que o visitara. Segundo a proposta, Mannerheim devia renunciar à presidência da república enquanto estava em Portugal. Nesse caso ele não ficaria incluído no processo da culpabilidade pela guerra, disse Wuori. No entanto, esta carta nunca chegou a Mannerheim no Algarve mas apenas em Helsínquia em Janeiro de 1946.

Quando não chegavam nenhumas informações da Finlândia, o Marechal enervou-se no início de Dezembro. Em 3 de Dezembro ele telegrafou ao Embaixador Gripenberg: “Inexplicável. Nenhum correio.Apresento a minha queixa.” 

No dia seguinte ele escreveu a Gripenberg: 
“Enviei-te ontem um telegrama desesperado. O único comunicado vindo do estrangeiro que tenho recebido aqui é uma carta privada sem importância, datada em 17 de Novembro e recebida em 28 de Novembro – de resto, nada de cartas nem de recortes de jornais. É como se todos os laços entre a Finlândia e o seu presidente tivessem sido cortados propositadamente. Praia da Rocha é um lugar formidável, o tempo está fifty-fifty, tempestades terríveis. Mas a estadia aqui no sol maravilhoso tem me feito bem, os pulmões estão em ordem, a úlcera gástrica ainda me incomoda. No entanto, logo vou ter que começar a pensar no regresso para casa. Ficaria grato se na viagem de regresso pudesse pernoitar na embaixada.”

O Marechal já começou a recordar-se dos seus vizinhos na Finlândia. No dia 7 de Dezembro ele escreveu ao Conselheiro Petter Forsström a Kirkniemi:
“Por circunstâncias incompreensíveis para mim, ainda não tenho recebido nada pelo serviço particular de correio. Esse correio devia ter sido enviado para mim uma vez por semana por Madrid, juntamente com o serviço particular de correio espanhol. Durante estes dois meses nem uma linha, nem um único recorte de jornal, é como se todos os fios entre mim e a minha pátria tivessem sido cortados. Podes entender que em vez do sossego que procurava isto é propício para afectar-me no sentido contrário. Kirkniemi, a venda do terreno, a marcação da floresta, a venda das acções, a compra dos materiais de construção, ou seja, tudo que é relacionado com a quinta interessa-me, assim como também tudo que é relacionado com aquela pergunta que neste momento preocupa a todos."

Foi apenas em Fevereiro de 1946 e em Helsínquia que Mannerheim recebeu o serviço particular de correio supostamente enviado a Portugal ao seu ajudante-de-ordens, o Coronel Grönvall. Em 4 de Fevereiro a Embaixada da Espanha em Estocolmo devolvera silenciosamente esse correio à Embaixada da Finlândia. Mais tarde o Embaixador Gripenberg confirmou que o correio de Mannerheim fora despachado em 22 de Novembro à Embaixada da Espanha em Estocolmo, de onde seguiu num saco selado do serviço particular de correio espanhol à Embaixada do Reino Unido, a qual por sua vez enviou o mesmo a Londres em 23 de Novembro. Depois o correio de Mannerheim ficou em Londres.

O próximo sinal de vida do serviço particular de correio deu-se em 13 de Dezembro de 1945, em que altura o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Madrid informou à sua embaixada em Estocolmo que o correio do Marechal apenas chegara em 12 de Dezembro de Londres a Madrid, de onde foi imediatamente despachado a Lisboa. O Embaixador da Espanha em Estocolmo, o Senhor Prat, não compreendia porquê é que o correio não ficara então despachado ao Marechal. Em Março de 1946 o Embaixador Prat achava mais provável que o serviço particular de correio de Mannerheim nunca tenha partido de Londres a Madrid.

Quanto a Salazar, em relação às férias de recuperação de Mannerheim ele estava na dúvida se o Marechal regressaria para Finlândia ou não. A dúvida ficou esclarecida em 13 de Dezembro de 1945 quando o Chefe de Protocolo Vianna acrescentou na margem de baixo de um memorando a Salazar sobre visitas de cortesia: “Fui informado por telefone que o Marechal pretende regressar para Finlândia.” 
A fonte dessa informação deve ter sido o Coronel Grönvall, o ajudante-de-ordens de Mannerheim. Segundo o ajudante mais jovem, ou seja, o actual Coronel Bäckman, o Marechal quis ausentar-se da Finlândia durante algum tempo, tanto por motivos de saúde como por motivos políticos, mas ao mesmo tempo ele quis absolutamente regressar para Finlândia como presidente. Segundo Bäckman não se tratava de nenhuma fuga. Esta opinião é compartilhada pelo general finlandês Heinrichs nas suas memórias.

O regresso via Europa

No dia 14 de Dezembro Mannerheim e a sua comitiva foram conduzidos de volta no carro do Governo português da Praia da Rocha a Estoril ao Hotel Palácio. Segundo a agência de notícias United Press “ao chegar o Marechal parecia bem disposto”. No dia 17 de Dezembro ele fez uma visita de cortesia e de agradecimento ao General Oscar Carmona, o Presidente da República Portuguesa, o qual retribuiu a visita de imediato. Por sua vez, em 18 de Dezembro Salazar veio ao Hotel Palácio para cumprimentar a Mannerheim. No dia seguinte o Marechal retribuiu a visita de Salazar. 

Salazar anotou no seu diário: “Quarta-feira, 19 de Dezembro, 17h-18h20. Visita do Marechal Mannerheim. Conversou-se sobre os problemas da Europa e a política das grandes potências. Problemas e factos da guerra da Finlândia.” 

Por sua parte, Mannerheim diz nas suas memórias: “Também foram muito interessantes os meus encontros com o Primeiro-Ministro Salazar, aquele homem com um ar juvenil, calmo e modesto, cujo trabalho bem-sucedido em prol de Portugal é conhecido também longe fora das fronteiras do país.” 

Assim o Marechal pagou com a sua caneta uma parte da sua dívida de hóspede. Ele também fez o mesmo com elegantes cartas de agradecimento escritas pela própria mão dele tanto para o chefe de protocolo do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal como para o director do Hotel Bela Vista. Ao primeiro ele agradeceu pelo carro disponibilizado e ao segundo pelo excelente sumo de pêra do hotel. Por sua vez, o Chefe de Protocolo Vianna reagiu à carta de agradecimento do Marechal escrevendo o seguinte memorando para Salazar em Janeiro:
 “O cônsul da Finlândia disse-me que na próxima semana iria enviar vinho e conservas para o Marechal Mannerheim. Visto que a Vossa Excelência uma vez mencionou da sua intenção de enviar-lhe algumas caixas de vinho, aqui talvez haveria uma oportunidade para concretizá-la. No caso positivo deveriam ser entregues no escritório do Cônsul Otto Wang, Rua do Arsenal 160.” 
Salazar provavelmente concretizou a sugestão, pois em Abril de 1946 o Coronel Grönvall enviou um cheque de 2616 marcos finlandeses assinado por Mannerheim à secção de contabilidade do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Finlândia. O cheque devia-se transferir para Lisboa ao Cônsul Wang para reembolsar os gastos de frete.

Inicialmente Mannerheim pretendia voar num avião sueco de Lisboa a Paris, mas afinal a viagem fez-se de comboio, primeiro com o Lusitânia Expresso no dia 20 de Dezembro de Lisboa a Madrid e depois continuando até Paris. Na fronteira franco-espanhola a úlcera gástrica do Marechal começou a incomodá-lo novamente e em Paris ele precisou de cuidados médicos. No entanto, o alojamento dele foi no Hotel Ritz e ele ainda passou o Natal em Paris. Em 29 de Dezembro a viagem continuou de avião até Estocolmo. No Dia do Ano Novo Mannerheim embarcou no navio Bore I rumo à cidade finlandesa de Turku.

No dia 2 de Janeiro de 1946 ao meio-dia Bore I chegou ao porto de Turku, onde Mannerheim foi recebido sem cerimónias pelo Governador Civil Wilho Kyttä, pelo comandante do quartel General Ruben Lagus, pelo Inspector da Polícia Fjalar Jarva e pelos ajudantes-de-ordens mais jovens Nordlund e Bäckman. Fazia 18 negativos e na última da hora o comboio especial de Mannerheim com o seu vagão de salão chegara ao porto. Enquanto o comboio estava parado na estação oriental de Turku Mannerheim almoçou na carruagem-restaurante em companhia de militares. 
O comboio especial partiu de Turku às 15 horas e chegou, depois de ter contornado o território da base militar soviética de Porkkala, à estação de Pasila em Helsínquia às 20 horas. O Primeiro-Ministro Paasikivi e o Ministro dos Negócios Estrangeiros Carl Enckell foram ao encontro de Mannerheim. 
A recepção foi directa e modesta, diz o relato de viagem do Major Bäckman, o qual termina da seguinte maneira:
“Passado um momento, Mannerheim, acompanhado pelos seus ajudantes-de-ordens, seguiu de carro à vivenda de Tamminiemi, a residência do Presidente da República em Meilahti. Posteriormente os documentos podem contar qual foi o resultado atingido com esta viagem. Um primeiro olhar deu motivos para ficar desconfiado.” Nisto Bäckman tinha razão.

O Coronel Bäckman conta que o reencontro de Mannerheim com o Primeiro-Ministro Paasikivi na estação de Pasila foi cavalheiresco e calmo, sem tensão. O Marechal não sabia que no seu discurso do Dia da Independência em 6 de Dezembro de 1945 Paasikivi nem sequer o mencionara. No discurso do Ano Novo no dia anterior Paasikivi dera um pontapé no Marechal ao dizer: “Têm-me chamado pessimista. No entanto, há várias espécies de pessimistas. Uns ficam sentados nas cinzas e lamentam-se. Não se pode ser um pessimista desses. Outros olham ás dificuldades olhos nos olhos.” É pouco provável que Mannerheim tenha sabido disto em Pasila.

O jornal Helsingin Sanomat, o qual noticiava regularmente mas pouco sobre a viagem de Mannerheim a Portugal, quase nunca comentara nos seus editoriais a posição de Mannerheim na política interna da Finlândia. O jornal foi mais longe em 16 de Novembro de 1945, quando um editorial sobre a política no tempo da guerra disse que “até agora também não se tem dito toda a verdade sobre como entrámos na guerra contra a União Soviética ao lado da Alemanha no Verão de 1941, em que contexto chama-se atenção ao papel do Comandante Supremo”. De vez em quando o jornal também citava artigos de jornais suecos que afirmavam que a viagem do Marechal estaria relacionada com o processo da culpabilidade pela guerra. Um pouco antes do Natal Helsingin Sanomat chegou mesmo a citar o jornal do partido comunista SKDL: Vapaa Sana [A Palavra Livre] acrescenta à notícia vinda de Estocolmo sobre o regresso à casa de Mannerheim o seguinte comentário: ‘Para a saúde do Presidente Mannerheim, apesar de se dizer que ele já tenha recuperado da sua doença, o regresso à pátria provavelmente não fará bem, pois o vindouro Inverno severo do Norte vai ser muito pouco saudável mesmo para muitos que sofriam de doenças menores.''

O jornal Vapaa Sana [A Palavra Livre] referia-se à saúde política de Mannerheim, mas desta vez acertou. Mannerheim escreve nas suas próprias memórias:
“De Estocolmo viajei directamente a Helsínquia, onde me instalei no Hospital da Cruz Vermelha. Este lamentável resultado das minhas férias de recreio foi uma grande desilusão, mas não se podia mudar o facto. Nos meses seguintes não tinha forças para cumprir as minhas responsabilidades como chefe de Estado, salvo quando era possível a partir da cama do hospital. No dia 4 de Março de 1946 enviei ao Governo um atestado médico e uma carta em que anunciei a minha decisão de demitir-me por causa do agravamento da minha saúde.” 

O pedido de demissão enquanto acamado

O pedido de demissão foi decisivamente influenciado pela visita do tenente-general soviético Grigori Savonenkov em 26 de Janeiro ao Marechal que se encontrava no Hospital da Cruz Vermelha. Savonenkov recebera instruções do General Zhdanov de Moscovo para contar a Mannerheim que “caso ele se demitisse, a Rússia não deixaria ninguém pensar que Mannerheim deve ficar preso, pois foi ele que fez o acordo da paz interina da Finlândia com a URSS e com isso salvaguardou-se face a todas as eventualidades”.  Estas são palavras bem claras e vieram certamente da boca de Estaline. Também a proclamação das sentenças do processo dos “culpáveis de guerra” em 21 de Fevereiro de 1946 foi um acontecimento importante que o Marechal aguardara. Conforme ele disse no seu pedido de demissão: “Assim a Finlândia tem cumprido as obrigações do acordo da paz interina.”

É claro que em 1945 Mannerheim foi a Portugal por motivos de saúde. Mas também é seguro que o Marechal ficou aliviado por ter conseguido afastar-se o mais possível, dentro da Europa de então, do general soviético Zhdanov, ou seja, do presidente da Comissão de Vigilância dos Aliados na Finlândia. 
Segundo a lei finlandesa sobre a culpabilidade pela guerra, o prazo para a apresentação de acusações passou quando Mannerheim na véspera do Ano Novo regressava do jantar em casa da sua irmã, a Condessa Sparre, à residência vazia do Embaixador Gripenberg em Estocolmo. Gripenberg encontrava-se na América nessa altura. Por isso, não sabemos se o Marechal tomou um conhaque.

O último documento no Arquivo dos Ajudantes-de-ordens do Presidente da República que trata da viagem a Portugal é uma cópia da carta do Coronel Grönvall do início de Junho de 1946 para Mrs. C.C. Walker, à qual Grönvall enviou 128 selos postais finlandeses: “Deixe-me juntar os melhores cumprimentos do Marechal, do Doutor e de mim próprio aos nossos estimados vizinhos – à família que morava na colina em frente do Hotel Bela Vista. A nossa estadia na Praia da Rocha, especialmente após os acontecimentos que se seguiram, parece mais um sonho bonito do que verdade.”

Hotel Bela Vista, Praia da RochaO Hotel Bela Vista continua na praia da Praia da Rocha, diante do muro dos hotéis de betão, quase como se estivesse de sentinela. Das seis semanas de férias de recuperação do Marechal em 1945 lembram hoje uma placa de bronze ao lado da porta de entrada e uma fotografia de Mannerheim na parede do bar do hotel. Hoje em dia o hotel serve como um lugar de votação quando os finlandeses do Algarve votam nas eleições da Finlândia. O Marechal até poderia considerar correcta a escolha do lugar de votação.

As fontes:

Arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Finlândia, Helsínquia; Arquivo Nacional da Finlândia, Helsínquia; Arquivo Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Lisboa; Arquivo Salazar, Biblioteca Nacional, Lisboa;
Paasikiven päiväkirjat [Os Diários de Paasikivi] 1944-1956; Tuomo Polvinen: J.K. Paasikivi – valtiomiehen elämäntyö [A Obra da Vida do Estadista] 1944-1948; Valitut Palat-Reader’s Digest: Mannerheim – tuttu ja tuntematon [Mannerheim – Conhecido e Desconhecido]; Juhani Suomi: Vonkamies – Urho Kekkonen 1944-1950; Urho Kekkosen päiväkirjat [Os Diários de Urho Kekkonen] 1958-1962; J. E.O Screen: Mannerheim; Jukka Nevakivi: Zhdanov Suomessa [Zhdanov na Finlândia] ; Linnasta linnaan – Eero A Wuoren poliittinen elämäkerta [Biografia Política de Eero A Wuori]; Yrjö Soini: Kalkki-Petteri; Erik Heinrichs: Mannerheim Suomen kohtaloissa [Mannerheim nos Destinos da Finlândia]; Sakari Virkkunen: Mannerheim – marsalkka ja presidentti [Marechal e Presidente]; Stig Jägerskiöld: Mannerheim – kirjeitä seitsemän vuosikymmenen ajalta [Cartas de Sete Décadas], Viimeiset vuodet [Os Últimos Anos] – Mannerheim 1944-1951; G. Mannerheim: Muistelmat [Memórias]; jornal Helsingin Sanomat, Outubro de 1945 – Março de 1946; conversação com o Coronel Rafael Bäckman, 30/10/2001. 

Hiperligações em inglês:

 

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actualizados 03-12-2010


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