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Ópera Finlandesa

Escrito paraVirtual Finland (actual thisisFINLAND) por Pekka Hako, Estudioso de música e autor. Tradução da versão brasileira Asta-Rose Alcaide; alterações da versão portuguesa pela Embaixada da Finlândia em Lisboa.

Kuningas Lear, de Aulis Sallinen na Ópera Nacional da Finlândia. Na foto: Matti Salminen. Fotografia: Stefan BremerKuningas Lear, de Aulis Sallinen na Ópera Nacional da Finlândia. Na foto: Matti Salminen. Fotografia: Stefan Bremer

A ópera finlandesa encontra-se há já três décadas na crista da onda de grandes sucessos, pelo menos até ao momento em que escrevemos estes comentários. O marco decisivo foi o ano de 1975, quando foram estreadas as óperas Ratsumies (O Cavaleiro), de Aulis Sallinen e Viimeiset kiusaukset (As Últimas Tentações), de Joonas Kokkonen. Em conjunto, causaram uma explosão de entusiasmo pela ópera de câmara que, em breve foi ampliada para o formato de grandes óperas baseadas no folclore, apresentadas em teatros ao ar livre, e óperas com temas campestres, apresentadas por grupos amadores locais. Rapidamente, o título de ´ópera` foi aplicado em obras que na realidade eram "Singspiele", ou musicais. O termo ópera deixou de ser uma denominação desconhecida para o público em geral.

Os primeiros tempos

As primeiras montagens completas de ópera na Finlândia ocorreram em Viipuri, nos anos 1820. Companhias itinerantes, a maioria delas de origem alemã faziam excursões da cidade mais próxima de São Petersburgo para Viipuri já que na época, a Finlândia era um Grão-Ducado do Império russo. No início, estas companhias só visitavam Viipuri, Turku e Helsínquia, mas em meados do século XIX, o novo género de música já tinha público em lugares tão distantes como Kuopio e Oulu. A grande maioria do repertório era constituída por obras italianas e alemãs.

Frederik Pacius (1809-1891) compositor e regente alemão Fotografia: Finlandia RecordsFrederik Pacius (1809-1891) compositor e regente alemão Fotografia: Finlandia Records

De qualquer forma, a música finlandesa já sofria uma forte influência alemã em meados do século XIX. Particularmente importante foi um regente alemão, Fredrik Pacius (1809-1891), que foi para Helsínquia em 1835, para ensinar música na Universidade. Ele começou a ampliar metodicamente a vida musical do seu novo país, obtendo resultados significativos. Os seus esforços culminaram com a criação da primeira ópera completa finlandesa, Kung Karls jakt (Kaarle-kuninkaan metsästys), (A Caçada do Rei Carlos, 1851/1875/1879), composta por Pacius sobre um libreto na língua sueca, da autoria de Zacharias Topelius. A estreia da montagem feita por um grupo de amadores, em Março de 1852, em Helsínquia tornou-se um marco histórico da música finlandesa, e tanto o compositor, como o libretista foram nomeados heróis nacionais. É uma grande ópera que, com os seus temas de salvação, inflamou o patriotismo dos finlandeses. A produção teve nove recitais esgotados, um número extraordinário tendo em conta que, a população total de Helsínquia na época, era constituida por apenas 20.000 habitantes, e que a elite culturalmente evoluída era muito reduzida.

O Teatro Alexander em Helsínquia. Fotografia: Volker von BoninO Teatro Alexander em Helsínquia. Fotografia: Volker von Bonin

Em 1879, quando a Finlândia era ainda um Grão-Ducado do Império russo, foi construído na rua Bulevardi, o Teatro Russo de Helsínquia por uma guarnição de soldados russos. Em 1880, recebeu o nome de Teatro Alexander em homenagem ao Czar Alexander da Rússia. Em breve começaram a ser apresentadas óperas no seu palco e passou a ser um importante espaço para as companhias itinerantes estrangeiras de ópera. Por exemplo, na Primavera de 1896, o Teatro recebeu as primeiras apresentações na Finlândia de, I Pagliacci, de Ruggiero Leoncavallo e de Cavalleria rusticana, de Pietro Mascagni, por uma companhia de ópera italiana, poucos anos após a estreia destas óperas na Itália.

As montagens mais importantes no início do século XX, foram as produções das óperas de Wagner, organizadas pela cantora lírica Maikki Järnefelt e marido, o compositor e regente Armas Järnefelt, juntamente com o empresário Edvard Fazer, nos anos de 1904 a 1906.

A primeira ópera em língua finlandesa

A predominância do nacionalismo na Europa, em finais do século XIX, reflectiu-se nos temas nacionais dos libretos de ópera. Na Finlândia houve uma grande procura por óperas baseadas no épico nacional, Kalevala. A Sociedade de Literatura Finlandesa organizou um concurso de composições de ópera que resultou na apresentação, em 1898, da primeira ópera baseada num libreto na língua finlandesa, Pohjan neiti (A Donzela do Norte), de Oskar Merikanto (1868-1924), um compositor conhecido pelas suas numerosas e amadas canções. A próxima ópera inspirada no Kalevala foi Aino (1909), de Erkki Melartin (1875-1937).

No ano de 1910, realizou-se a estreia de Daniel Hjort (1909/1937), de Selim Palmgren (1878-1951) baseada numa peça de teatro histórica finlandesa.

 A fundação da ópera

O ano de 1911 foi uma data decisiva para a história da ópera finlandesa como instituição: um grupo de líderes sociais e culturais, chefiado pela soprano de fama internacional, Aino Ackté, fundou a Ópera Doméstica. O Conselho de Direcção da nova instituição reconheceu a natureza multi-linguística da ópera e, para além de finlandeses contratou também artistas estrangeiros. Em 1914, a Ópera Doméstica passou a chamar-se Ópera Finlandesa e permaneceu com este nome até 1956, quando foi mais uma vez alterado, permanecendo até à actualidade como a Ópera Nacional da Finlândia.

Castelo de Olavinlinna - o palco do Festival de Ópera de SavonlinnaCastelo de Olavinlinna - o palco do Festival de Ópera de Savonlinna

Em 1912, Aino Ackté também fundou o Festival de Ópera de Olavinlinna com apresentações no Castelo de Olavinlinna, na cidade de Savonlinna, na Finlândia oriental. Esta iniciativa foi o embrião do actual Festival de Ópera de Savonlinna. Nos primeiros três anos, o repertório era constituído exclusivamente por obras finlandesas. O último Festival organizado por Ackté foi em 1930, e só em 1967 o Festival de Ópera de Savonlinna foi reactivado, tornando o Castelo de Olavinlinna, do século XV, o segundo mais importante teatro lírico da Finlândia depois da Ópera Nacional da Finlândia. O Festival cresceu rapidamente e tornou-se um evento de importância internacional.

Hoje em dia, o Festival de Ópera de Savonlinna recebe 50.000 pessoas por ano, com um número considerável de estrangeiros. As apresentações são encenadas no pátio do Castelo de Olavinlinna, o qual pode acomodar mais de 2.000 pessoas.

Após a independência da Finlândia em 1917, o Teatro Alexander foi entregue com carácter permanente, à Ópera Finlandesa, e a companhia mudou-se para o edifício em 1919. A ópera foi obrigada a permanecer neste teatro, um tanto modesto, até 1993, altura em que a primeira construção própria para espectáculos líricos em Helsínquia foi finalmente concluída.

Nos anos de 1910, as óperas finlandesas concentraram-se na língua e cultura finlandesas e na representação realista do povo. Os adeptos da língua finlandesa tinham razões para estarem satisfeitos com Seitsemän veljestä (Os Sete Irmãos, 1913), de Armas Launis (1884-1959), baseada na novela epónima de Aleksis Kivi (1870).

Desde o início, Launis assumiu determinadamente o perfil de compositor de ópera. Depois de Seitsemän veljestä, ele interessou-se pelo conto Kullervo, do épico Kalevala. A estreia de Kullervo na Ópera Finlandesa, em 1917, foi um sucesso tal que a produção foi remontada nos anos de 1920 e 1934. A obra também teve bastante sucesso na França.

Atingindo um nível internacional

A ópera tornou-se mais internacional nos anos 20, quando numerosos cantores estrangeiros convidados se apresentaram na Ópera Finlandesa, e o trabalho dos directores de cena começavam a chamar a atenção. Naquele tempo tudo tinha um carácter extremo na jovem nação, as pessoas eram radicais comprometidos ou tradicionalistas arraigados. A ópera finlandesa alcançou um nível internacional que contentou a ambos os lados. Aarre Merikanto (1893-1958) lançou a pedra fundamental para o Modernismo finlandês, escrevendo uma música inspirada na obra colorida de Alexander Scriabin. A música de Merikanto era essencialmente romântica, mas combinou de uma forma fascinante com elementos do Impressionismo e do Expressionismo.

A ópera Pohjalaisia de Leevi Madetoja na Ópera Finlandesa em 1923. Fotografia: A Ópera Nacional da FinlândiaA ópera Pohjalaisia de Leevi Madetoja na Ópera Finlandesa em 1923. Fotografia: A Ópera Nacional da Finlândia

Ao mesmo tempo, Leevi Madetoja (1887-1947) seguia o lado nacional-romântico, do qual Jean Sibelius foi o pioneiro, temperando a sua música com influências francesas. A música de Madetoja era mais acessível do que a de Merikanto e a sua ópera, Pohjalaisia (Os Ostrobotnenses, 1923) teve um enorme sucesso, não só na Finlândia, mas também no estrangeiro. Os Modernistas, por outro lado, foram acusados de escrever uma música ´não-finlandesa` e muitas obras importantes deixaram de ser apresentadas. Por exemplo, a ópera Juha (1922), de Merikanto, teve de esperar quatro décadas antes de ser estreada. Pohjalaisia e Juha são obras fundamentais da ópera finlandesa e, depois das suas estreias, tiveram um lugar garantido no repertório básico dos teatros líricos finlandeses.

O Modernismo dos anos 20 viu a emergência das primeiras composições de Väinö Raitio (1891-1945). Na sua última ópera, Kaksi kuningatarta (As duas Rainhas, 1940) ele procurou conscientemente um estilo estritamente operístico, no qual as linhas vocais são subordinadas ao texto e ao drama. Com as suas cinco óperas, Väinö Raitio ocupa um lugar importante na história da ópera finlandesa. Foi um pioneiro que não se deixou intimidar pela falta de sucesso junto do público.

Depois da Segunda Guerra Mundial

A Segunda Guerra Mundial isolou a música finlandesa das novas tendências estilísticas da época. Dos compositores de óperas que apareceram nos anos 40 e 50, nenhum se revelou um grande inovador. Havia uma tendência para introduzir novos elementos musicais, mas foi só nos anos 60 que surgiu um estilo completamente novo, contribuindo, em última análise, para a verdadeira explosão de óperas dos anos 70.

Tauno Pylkkänen (1918-1980), compositor. Fotografia: Suomen Säveltäjät/Taisto TuomiTauno Pylkkänen (1918-1980), compositor. Fotografia: Suomen Säveltäjät/Taisto Tuomi

Depois da Segunda Guerra Mundial, o jovem compositor Tauno Pylkkänen (1918-1980) surgiu como um compositor lírico muito promissor. Ele era um pós-romântico fortemente comprometido com a melodia no espírito da ópera italiana, e a sua obra não correspondia aos desafios modernos em voga naquele momento. No entanto, ele introduziu um novo género: as miniaturas de ópera escritas para uma orquestra tradicional em vez de uma orquestra de câmara.

Pylkkänen é um dos poucos compositores finlandeses cuja produção consiste quase exclusivamente de dramas musicais. Ele conquistou a oportunidade de ser reconhecido como compositor lírico com a estreia, em 1945, na Ópera Finlandesa, da sua obra Mare ja hänen poikansa (Mare e seu Filho, 1943), baseada num texto de Aino Kallas. Pylkkänen teve seu maior sucesso internacional com a ópera para rádio, Sudenmorsian (A Noiva do Lobo, 1950).

 No limiar da mudança

A ópera começou a tomar uma cor local com a fundação, nos anos 60 e 70, de uma dúzia de sociedades líricas em toda a Finlândia. As óperas regionais mais antigas tinham sido fundadas em Tampere, Vaasa e Lahti imediatamente após a guerra. Nos teatros líricos regionais estrearam-se duas dezenas de óperas finlandesas a partir daquelas datas. Tiveram uma grande importância para compositores como Tauno Marttinen (n. 1912), de quem quase todas as óperas eram compostas por encomenda por pequenas sociedades líricas e estreadas fora de Helsínquia. A Ópera Nacional da Finlândia recebeu um grande impulso quando, em 1963, finalmente ganhou uma orquestra própria.

Em termos de números de óperas compostas, Tauno Marttinen é o mais prolífico compositor finlandês: ele escreveu aproximadamente vinte óperas, das quais Poltettu oranssi (Laranja queimada, 1968) é a mais importante, focalizando a natureza humana e a filosofia religiosa e procurando através delas uma nova cor tonal.

Einojuhani Rautavaara

A ópera de Einojuhani Rautavaara, Aleksis Kivi no Festival de Ópera de Savonlinna, em 1997 com Jorma Hynninen. Fotografia: Värisuomi/Matti KolhoA ópera de Einojuhani Rautavaara, Aleksis Kivi no Festival de Ópera de Savonlinna, em 1997 com Jorma Hynninen. Fotografia: Värisuomi/Matti Kolho

Nos anos 60, a ópera finlandesa começou finalmente a separar-se das suas raízes nacionais. A mais importante ópera nova da década foi Kaivos (A Mina,1963), de Einojuhani Rautavaara (n. 1928), estreada na televisão em 1963. A sua expressividade é intimamente ligada à tradição lírica europeia do século XX. Kaivos foi composta com uma técnica que pertence ao período dodecafónico do compositor que durou aproximadamente 10 anos.

Einojuhaara Rautavaara (n. 1928), compositor. Fotografia: Värisuomi/Matti KolhoEinojuhaara Rautavaara (n. 1928), compositor. Fotografia: Värisuomi/Matti Kolho

Nos anos 80, Rautavaara desenvolveu um estilo sintético, abandonando o que ele achou que estava a reprimir o Modernismo. Uma chave para esta mudança foi a sua obra baseada no épico Kalevala, culminando na ópera em 3 actos, Thomas (1985). As obras que precederam esta ópera foram Runo 42 (Poema 42) ou Sammon ryöstö (O Mito de Sampo, 1974/1982) para coro masculino e a ópera para coro infantil Marjatta matala neiti (Marjatta, a moça humilde, 1975), uma peça de mistério do Kalevala. Sammon ryöstö é uma ilustração da Finlândia nos tempos pagãos dos vikings, no século IX, enquanto Marjatta, baseada em Runo 50 (Poema 50) do Kalevala, é uma descrição lírica e simbólica da chegada do cristianismo à Finlândia, uma mistura de aspectos nacionais finlandeses e tradições europeias. Em Thomas, a mistura de culturas já tinha acontecido; a cultura Kalevala já fora assimilada pela cultura ocidental.

A próxima ópera de Rautavaara, Vincent (1987), também foca um homem a chegar ao fim da sua vida e relembrando vários momentos do seu passado por meio de visões retrospectivas e alucinações. Vincent é baseada na vida do pintor Vincent van Gogh. A ópera de câmara Auringon talo (A Casa do Sol, 1990) continua a tendência em direcção à importância primordial da escrita melódica nas partes vocais. Isto é ainda mais evidente na ópera Aleksis Kivi(1996), baseada na vida do escritor nacional finlandês.

Einojuhani Rautavaara é o único compositor finlandês cuja produção de ópera cobre o período inteiro de transição na ópera finlandesa. Kaivos foi uma obra pioneira nos anos 60, Thomas e Vincent foram compostas durante a primeira fase da grande explosão de óperas nos anos 70 e 80. As suas óperas Auringon talo e Aleksis Kivi, tal como Thomas e Vincent, tiveram várias montagens no estrangeiro, o que muito ajudou para integrar a música finlandesa no cenário musical internacional. A última ópera de Rautavaara tem como personagem principal um enigmático monge russo, Rasputin, cujos reputados talentos sobrenaturais, encantaram a própria Czarina russa.

Começa a explosão da ópera

O evento isolado de maior significado nos anos 60 foi a ressurreição da ópera Juha, de Aarre Merikanto, escrita nos anos 20. A produção meticulosa de Juha, em 1967, plantou as sementes de um crescimento da ópera que floresceu numa única direcção nos anos 70.

A ópera de Aulis Sallinen Ratsumies no Festival de Ópera de Savonlinna em 1975. Fotografia: Savonlinna Opera Festival/ImagebankA ópera de Aulis Sallinen Ratsumies no Festival de Ópera de Savonlinna em 1975. Fotografia: Savonlinna Opera Festival/Imagebank

A Finlândia começou a sua ascensão em direcção ao topo do mundo da ópera, nos anos 70 com um repertório tradicional e contemporâneo convivendo pacificamente lado a lado. Em 1973, o Festival de Ópera de Savonlinna mostrou o caminho para produções imensamente populares da Flauta Mágica, de Mozart e, em 1974, de Boris Godunov, de Mussorgsky, além das estreias da nova ópera finlandesa que alimentaram a febre de ópera na Finlândia. Por detrás deste sucesso estava Martti Talvela, baixo finlandês internacionalmente conhecido, que era director artístico e um dos principais cantores do festival.

Inspirado no sucesso de Savonlinna, o Festival de Música de Ilmajoki começou a montar óperas populares, caracterizadas por descrições da vida das pessoas do povo, com música acessível e apresentações em grandes palcos ao ar livre. Estas produções eram uma extensão das tradições florescentes do teatro de Verão ao ar livre, e não demorou muito até surgirem óperas populares baseadas em temas locais e eventos históricos em várias localidades. Provavelmente, nestes últimos vinte anos, em nenhuma outra parte do mundo surgiu uma tão grande quantidade de óperas que se harmonizavam tão bem com a corrente principal da cultura musical como na Finlândia.

A ópera de Joonas Kokkonen, Viimeiset Kiusaukset na Ópera Nacional da Finlândia em 1975. Na foto, Ritva Auvinen e Martti Talvela. Fotografia: Kari HakliA ópera de Joonas Kokkonen, Viimeiset Kiusaukset na Ópera Nacional da Finlândia em 1975. Na foto, Ritva Auvinen e Martti Talvela. Fotografia: Kari Hakli

O status da ópera na Finlândia foi reforçado por tournés da sua Ópera Nacional pelo estrangeiro, com grande sucesso no final dos anos 70 e na primeira parte dos anos 80. Em geral, essas tournés apresentavam as óperas de Joonas Kokkonen, Viimeiset kiusaukset (As Últimas Tentações) e de Aulis Sallinen, Punainen viiva (A Linha Vermelha). Por fim, a Ópera Nacional da Finlândia foi convidada para se apresentar, na Primavera de 1983, na Metropolitan Opera de Nova Iorque.

Ratsumies (O Cavaleiro, 1974) foi encomendada pelo Festival de Ópera de Savonlinna a Aulis Sallinen (n. 1935). É a primeira de uma série de três óperas que, de certo modo, reflectem um determinado período na história da Finlândia. Estas também representam o alargamento do horizonte do compositor. Ratsumies, é uma história de amor tipo balada. Punainen viiva (A Linha Vermelha, 1978), é baseada numa novela com preocupação social quanto à luta dos pobres e focaliza eventos a nível nacional. Kuningas lähtee Ranskaan (O Rei vai embora para França, 1983), é uma tapeçaria rica em texto e música que desenvolve o alcance e o ponto de vista de uma perspectiva universal.

Kullervo (1988), encomendada para a inauguração do novo Teatro de Ópera em Helsínquia, é a quarta ópera de Sallinen. Voltando-se para a tragédia individual, o compositor escreveu o seu próprio libreto baseado num episódio do épico Kalevala e na peça de Aleksis Kivi, Palatsi (O Palácio, 1993), um conto satírico sobre o poder centralizado na corte do Imperador da Etiópia. Ao mesmo tempo, é uma paródia do Rapto do Serralho, de Mozart. A ópera mais recente de Sallinen é Kuningas Lear (Rei Lear, 1999), baseada na tragédia de Shakespeare, também sobre o poder - ou sobre ganhar e perder o poder absoluto.

Todas as óperas de Sallinen foram montadas no estrangeiro, sobretudo nos Estados Unidos, na França, Inglaterra, Alemanha, Suécia e Estónia.

Joonas Kokkonen (1921-1996), conquistou o público em geral ao lado de Aulis Sallinen no final dos anos 70, com a sua única ópera Viimeiset kiusaukset (As Últimas Tentações, 1975). Esta só ficaria em segundo lugar atrás da Pohjalaisia de Leevi Madetoja, caso concorresse ao título de ópera finlandesa de maior sucesso. Desde a sua estreia em 1975, já teve aproximadamente 300 apresentações. A Ópera Nacional da Finlândia levou-a em tournés a sete países, incluindo o Metropolitan de Nova Iorque. Fez parte do repertório do Festival de Ópera de Savonlinna, de 1977 a 1982.

É difícil definir ao certo as razões do sucesso desta ópera que trata de um assunto raras vezes apresentado no palco. É a história da vida de Paavo Ruotsalainen, um pregador leigo e líder de um movimento de renovação religiosa muito activo no início do século XIX, e a sua luta para encontrar a revitalização de Cristo. A ópera é realista apenas na primeira e última cena, onde o diálogo é falado em vez de cantado, os personagens são representados por actores em vez de cantores. A principal acção desenvolve-se num outro nível, consistindo de alucinações, visões e memórias distorcidas que Paavo experienciou num delírio durante uma noite de Inverno imediatamente antes da sua morte.

Cresce a explosão da ópera

A explosão da ópera ultrapassou eventualmente os limites da Ópera Nacional da Finlândia e do Festival de Ópera de Savonlinna: por exemplo, o Festival de Música de Ilmajoki na Ostrobotnia, Finlândia ocidental, desenvolveu-se num espaço da maior importância para as óperas populares com um sabor regional. Os dois ´compositores residentes` do Festival de Ilmajoki, o regente-compositor Jorma Panula (n. 1930), e Atso Almila (n. 1953) escreveram óperas sobre assuntos relacionados com a história e a vida dos ostrobotnianos. Montadas num grande palco ao ar livre, estas óperas combinaram com a tradição do teatro de Verão, além do seu impacto ser realçado pelo facto dos cenários serem familiares e autênticos.

O Festival de Músicade Ilmajoki em 1984. Fotografia: Finland Festivals/Petri KuokkaO Festival de Músicade Ilmajoki em 1984. Fotografia: Finland Festivals/Petri Kuokka

O Festival de Música de Ilmajoki tem vindo a colaborar com a Ópera de Vaasa na encomenda de novas óperas, a Ilkka Kuusisto (n. 1933). Nos anos 80, ele tornou-se um compositor ´da corte` não oficial da Ópera de Vaasa.

Kalevi Aho (n. 1949) surgiu com muita força, como um jovem compositor nos anos 70. A sua primeira ópera, Avain (A Chave, 1978), um dramático monólogo para barítono, é uma paisagem da alma e do meio de um homem solitário e angustiado, ilustrando a sua exclusão da sociedade moderna. Hyönteiselämää (Vida de Insecto, 1987) teve grande sucesso quando estreada na Ópera Nacional da Finlândia. O libreto é baseado numa peça satírica de Karel e Josef Capek.

O Festival de Ópera de Savonlinna encomendou a Aho, a última parte da trilogia, composta por três compositores, Aika ja uni (A Época dos Sonhos), para o Verão de 2000. Em Salaisuuksien kirja, (O Livro dos Segredos, 1998), uma ópera com quatro cenas, o problema fundamental é o conceito da verdade; o que é a verdade, quem a define, e como podemos nós saber se está a ser manipulada?

A ópera de Kalevi Abo, Hyöteiselämää na Ópera Nacional da Finlândia,em 1996. Fotografia: Kari HakliA ópera de Kalevi Abo, Hyöteiselämää na Ópera Nacional da Finlândia,em 1996. Fotografia: Kari Hakli

Estreada em 2001, Ennen kuin me kaikki olemme hukkuneet (Antes que todos nós nos afoguemos, 1999) é baseada, como Avain, numa peça radiofónica de Juha Mannerkorpi. É uma obra que se desenrola como se fosse um sonho e que expõe perguntas para as quais não existem respostas claras.

O compositor de ópera mais prolífico da geração da década de 50 é Olli Kortekangas (n. 1955). Sua primeira ópera Short Story (1980) era uma sátira das formas tradicionais estagnadas da música lírica. Porém, em duas décadas, a atitude de Kortekangas em relação à ópera mudou. Sua ópera Marian rakkaus (O Amor de Maria, 1999), bastante convencional, foi estreada no Festival de Ópera de Savonlinna - a origem da explosão de ópera na Finlândia - no verão de 2000.

A ópera para televisão, Grand Hotel, foi influenciada pelo teatro do absurdo. Joonan kirja (O Livro de Jonas, 1995), e é a mais próxima de uma montagem de ópera tradicional, mas nesta o compositor também estava a procurar novas formas de abordar o género.

Alcançar o público em geral

A ópera de Paavo Heininen Silkkirumpu na Ópera Nacional da Finlândia em 1989. Fotografia: Kari HakliA ópera de Paavo Heininen Silkkirumpu na Ópera Nacional da Finlândia em 1989. Fotografia: Kari Hakli

A década de 80 foi um período de crescimento e de estabilização na ópera finlandesa. O domínio dos assuntos ampliou-se, e como resultado, as variações de estilos também aumentaram. Um contraste com as óperas de Aulis Sallinen e Joonas Kokkonen, baseados em assuntos decididamente finlandeses e tendo no elenco papéis decalcados de pessoas comuns, (estas receberam o nome ousado de ´fur hat operas´, óperas de gorros de pele), apareceram em 1984, com a estreia de Silkkirumpu (O Tambor Damasco, 1983), de Paavo Heininen (n. 1938), uma obra modernista sobre um tema japonês que abriu o caminho para compositores mais novos. A segunda ópera de Heininen é bem diferente de Silkkirumpu. Veitsi (A Faca, 1988), é uma história em vários níveis localizada numa sociedade urbana moderna.

A música de Pehr Henrik Nordgren (n. 1944), é caracterizada por um forte sentido de melancolia e emoção perturbadora. Den svarte munken (O Monge Negro, 1981) é uma ópera de câmara relativamente extensa, para a qual o compositor escreveu seu próprio libreto, baseado num conto de Anton Chekhov. Alex (1983) é uma ópera para televisão.

A música finlandesa tem sido enriquecida pelas contribuições de dois compositores imigrantes da Europa central: Herman Rechberger (n. 1947), da Áustria e Oliver Kohlenberg (n. 1957), da Alemanha. A extensa produção de Rechberger inclui várias óperas. Die Nonnen (As Freiras, 1988/1995),e é orquestrada para instrumentos antigos. Laurentius (1991) é uma das poucas óperas em latim. A tendência de Rechberger para combinar elementos estilísticos muito diferentes está presente de uma forma bem vincada em ...nunc et semper... (1998), um afresco no estilo de oratório, com duração de meia hora. Uma reconstrução periódica da primeira ópera completa preservada, Euridice (1600), de Jacopo Peri, é uma curiosidade na produção de Rechberger. Ele também escreveu três óperas para crianças e adolescentes.

O alemão Oliver Kohlenberg descobriu na sua primeira ópera, Das Bergwerk zu Falun (A Mina de Falun, 1975) todos os elementos estilísticos e estéticos que caracterizam sua composição lírica. A ópera Sina ja kookospuu (Sina e a Palmeira, 1987) foi inspirada na viagem que o compositor fez à Samoa ocidental. Sipirjan lapsi (O Filho de Sipirja, 1998), é uma síntese da sua produção até àquele momento. Na ópera Magdalena (2000), Kohlenberg usa temas medievais e do Kalevala.

 Óperas baseadas no folclore

A popularidade das óperas baseadas no folclore, a partir da década de 70 resultou em vários Singspiele e musicais sendo denominadas por ´óperas`, com o propósito de que isso lhes daria mais crédito. O conceito de ´ópera` foi um tanto ´desvalorizado` desde então, mas por outro lado, serviu para aumentar o interesse do público em geral pelo género lírico, o qual assim se expandiu e renovou. Muitas montagens de ópera hoje em dia, são direccionadas para plateias específicas. Há óperas religiosas, incluindo cânticos para a comunidade e hinos, óperas para ocasiões festivas montadas à beira de um lago, ou num museu ao ar livre, óperas para crianças e adolescentes. As produções ficaram mais profissionais, apesar do velho espírito voluntário ainda estar presente em muitas apresentações de óperas mais populares, as quais não seria possível realizar sem a participação activa de artistas amadores.

A ´ópera desportiva`, Paavo Suuri. Suuri Juoksu. Suuri Uni. (Paavo, o Grande. Uma Grande Corrida. Um Grande Sonho, 2000) de Tuomas Kantelinen (n. 1969), foi apresentada numa produção de proporções espectaculares sem precedentes no Estádio Olímpico em Helsínquia, no Verão de 2000. Um espectáculo pomposo com apresentação de helicópteros militares continuou a grandiosa tradição de óperas baseadas no folclore com maciças apresentações ao ar livre que incluíam, por exemplo, uma cena de batalha com uma carga de cavalaria executada por cavalos verdadeiros duas décadas mais cedo em Ilmajoki. Porém, a ópera de Kantelinen é escrita de tal forma que, caso seja necessário, pode ser produzida em muito menor escala.

A produção de Kari Tikka (n. 1946) inclui muita música ocasional sagrada, e na ópera Luther (Lutero, 2000), por exemplo, a plateia é chamada a participar no canto dos hinos. A ópera de Kari Tikka é até hoje, a única ópera escrita sobre Martin Luther.

Em direcção a uma nova era

O Teatro de Ópera em HelsínquiaO Teatro de Ópera em Helsínquia

Na década de 90, a ópera finlandesa ganhou finalmente um teatro digno da sua categoria: o novo Teatro de Ópera em Helsínquia foi inaugurado em Novembro de 1993, e providenciou à Ópera Nacional da Finlândia um espaço de classe internacional. Como resultado, surgiu uma contra-cultura proveitosa ou, mais apropriadamente, paralela: pequenas e competentes companhias de ópera procurando uma nova forma de expressão lírica. A tendência, que começou nos anos 70, resultou numa reforma do conteúdo na ópera. As pequenas companhias ressuscitaram um género que estava quase esquecido - a ópera de câmara. Este facto deu a muitos novos compositores, a oportunidade de escreverem óperas.

A estreia absoluta no novo Teatro de Ópera, em 1995, foi com a ópera Det sjungande trädet (A Árvore Canora, 1988), de Erik Bergman (n. 1911). Nas suas primeiras composições vocais Bergman, um incansável pioneiro da avant-garde finlandesa, usou a voz humana com tanta liberdade e tantas inovações que a ópera se tornou uma síntese de toda a sua produção. Combina diferentes aspectos da sua personalidade: um compositor vocal habilidoso, um brilhante colorista e um apaixonado por lendas e mitos.

O multi-talentoso músico e compositor Jukka Linkola (n. 1955), escreveu a sua primeira ópera Angelika (1991) para a televisão. É uma jornada estonteante pelas áreas escondidas da nossa mente. A segunda ópera de Linkola, Elina (1992) é baseada na narrativa de um poema do folclore. É uma série de eventos parecidos com sonhos, um caleidoscópio de cores e visões. A mais recente ópera de Linkola, Täyttyneiden toiveiden maa (Matka) (O País das Esperanças Realizadas ou A Viagem, 1998) é mais lírica do que Elina e contém mais elementos puramente vocais, tais como as árias.

Kimmo Hakola (n. 1958) escreveu duas óperas de câmara. Marsin mestarilaulajat, (Os Mestres Cantores de Marte, 2000), com o subtítulo de: "No espaço ninguém te pode ouvir cantar", é uma excepção revigorante no domínio da ópera finlandesa. Baseada nas revistas de banda desenhada, é uma peça absurdamente humorística e uma das óperas mais originais compostas na Finlândia. A segunda ópera de câmara de Hakola é, por outro lado, completamente séria. Sinapinsiemen (A Semente de Mostarda, 2000) é a história de um filósofo e dissidente religioso na Ostrobotnia, no século XVIII.

Riddaren och draken, (O Cavaleiro e o Dragão, 2000), de Mikko Heiniö (n. 1948) foi encomendada para o 700º Aniversário da Catedral de Turku. A ópera mostra uma combinação de estilos e técnicas típicas de Heiniö.

Kaija Saariaho (n. 1952), compositora. Fotografia: Maarit KytöharjuKaija Saariaho (n. 1952), compositora. Fotografia: Maarit Kytöharju

A primeira ópera de Kaija Saariaho (n. 1952), L´amour de loin (O Amor de longe, 2000) é a mais importante encomenda estrangeira na história da música finlandesa até ao momento. Foi encomendada pelo Festival de Salzburgo e o Théâtre Châtelet para o Verão de 2000. Teve um sucesso muito grande, o que contribuiu para que Saariaho recebesse um dos prémios de maior prestígio atribuído a compositores em todo mundo, o Prémio Grawemeyer. O libreto, em francês, trata de uma história de amor numa corte medieval, e a ópera em cinco actos tem apenas três solistas. L´amour de loin é uma mistura de amor espiritual e carnal. O texto segue o clima de Tristão e Isolda, de Wagner e Pelléas et Mélisande, de Debussy e a sua abordagem à ópera é paralela à de Saint François d´Assise, de Olivier Messiaen. A música incensada espiritualmente de Saariaho é rica em cores e imagens criadas pela mente e movimenta-se num ritmo muito lento.

L´amour de loin tem sido apresentada em Paris, na Suíça, Alemanha e nos Estados Unidos, além de Salzburgo. O sucesso internacional ultrapassou o das óperas de Aulis Saalinen, Joonas Kokkonen e Einojuhani Rautavaara.

Cantores no estrangeiro

Dezenas de cantores de ópera finlandeses apresentam-se regularmente em palcos líricos em todo o mundo. As estrelas máximas da ópera internacional incluem sopranos Soile Isokoski e Karita Mattila, mezzo-sopranos Monica Groop, tenores Jorma Silvasti e Raimo Sirkiä, barítonos Jorma Hynninen e Tom Krause e baixos Matti Salminen e Jaakko Ryhänen.

Publicado em Junho de 2004.

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actualizados 08-07-2009


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