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Entre os lagos, debaixo da Estrela Polar - Uma crónica sobre a Finlândia e o Festival de Teatro de Tampere 2003

Escrito por Vera San Payo de Lemos

Públicado no jornal Duas Colunas - Notícias do Teatro Nacional São João, em Janeiro de 2004

O destino era Tampere, onde o mais famoso festival de teatro da Finlândia se iria realizar entre 5 e 10 de Agosto, mas a rota da viagem começou um dia antes em Helsínquia. Apesar dos atrasos resultantes da procura de uma mala transviada na escala feita em Barcelona, ainda restaram algumas horas de luz para uma pequena volta pela cidade com Jukka-Pekka Pajunen, tradutor e dramaturgista finlandês, amigo dos encontros de tradutores de peças de teatro contemporâneo em língua alemã. O convite tinha partido do seu interesse em me fazer comprovar in loco as histórias contadas, sempre com grande entusiasmo, sobre a paixão dos finlandeses pelo teatro, visível nas salas cheias com público de todas as idades e classes sociais, disponível para se deslocar de muito longe para assistir a um espectáculo. “O teatro vem logo a seguir ao futebol e o tango é o nosso fado”, resumia Jukka-Pekka com humor quando, nos tempos livres dos encontros, nos punha a ouvir as canções melancólicas, de ritmos dolentes, em que Olavi Virta, o Carlos Gardel finlandês, Markus Allan, Reijo Taipale ou Eino Grön cantavam a saudade dos amores e dos paraísos perdidos, a tristeza de todos sermos “prisioneiros deste mundo” e o sonho com “satumaa”, o país das mil maravilhas.

Em Helsínquia, na esplanada junto ao mar, entre pessoas com mantas sobre os ombros em fim de tarde, a olhar para as ilhotas em frente, onde de dia tinham armazenado horas de sol e calor, não era difícil imaginar os invernos escuros e gelados. Tallinn era ali do outro lado do golfo, São Petersburgo um pouco mais longe. Os grandes espaços e alguma arquitectura de Helsínquia recordavam os séculos do grão-ducado finlandês, sob domínio da Rússia até à Revolução de 1917, e o teatro sueco por onde tínhamos passado, toda a sinalética da cidade de Helsinki/Helsingfors, sempre em finlandês e sueco, as duas línguas oficiais, ilustravam a história comum, o tempo em que a Finlândia fizera parte do reino da Suécia e Estocolmo era a capital de referência. Entre São Petersburgo e Estocolmo, ora sob ocupação da Rússia ora da Suécia, a Finlândia tinha começado a construir a sua própria história só no início do século XIX. Um livro intitulado Kalevala, uma compilação do folclore, em forma de poema épico, feita por Elias Lönnrot (1802-1884), tinha sido fundamental para criar um sentimento de identidade nacional e divulgar a cultura e a língua finlandesa emergente. Fonte de inspiração para as artes plásticas, para a música, para a dança e, mais recentemente, para O Senhor dos Anéis de Tolkien, o Kalevala foi também adaptado ao teatro pelo próprio Elias Lönnrot que, com Aleksis Kivi (1834-1872), autor de linguagem inovadora em vários géneros literários, criou as bases do teatro finlandês.

Tampere

TampereDe Helsínquia até Tampere eram duas horas de comboio. Antes da partida, na Estação Central, ainda houve tempo para espreitar o restaurante onde Brecht tinha colocado Ziffel e Kalle a conspirar nos Diálogos de Exilados, durante o seu próprio exílio na Finlândia, entre 1940 e 1941. Na gare, a memória foi buscar a câmara a cambalear de Aki Kaurismäki, seguindo o seu Homem sem Passado esvaído em sangue, espancado quase até à morte. Pelo caminho, através da janela, a paisagem de floresta, água, vento e ar puro, Hämeenlinna de Sibelius e do Senhor Puntila e o seu Criado Matti, a peça escrita por Brecht em conjunto com a sua afectuosa anfitriã, a dramaturga de origem estoniana Hella Wuolijoki. 

Na chegada a Tampere, os panos esticados sobre as ruas, anunciando o festival, animavam a cidade, indecisa entre sol e chuva. Fundada em 1799, Tampere ascendeu a maior cidade industrial do país com o desenvolvimento da indústria do papel, do algodão e da metalurgia, mas a sua situação geográfica, entre os lagos Näsijärvi e Pyhäjärvi, manteve a natureza viva no meio das chaminés das fábricas e a possibilidade de se chegar a pé quase a todo o lado. Hoje com 200 000 habitantes, com as antigas fábricas transformadas em espaços de cultura e lazer, Tampere cedeu a sua importância económica à vizinha Nokia, apenas a 18 quilómetros de distância, e tornou-se um pólo cultural, célebre pelos seus mais de dez teatros profissionais, pelos festivais de música e cinema e pelo festival internacional de teatro, o maior de toda a Escandinávia, que este ano festejava o 35º aniversário.

Festival de Teatro de Tampere

Recebidas as boas vindas, a pasta com a documentação e os bilhetes para os espectáculos, foi ir a passo célere pela larga rua principal cheia de lojas, atravessar a ponte sobre as cataratas junto aos belos edifícios de tijolo e vidro das antigas fábricas de algodão do escocês Finlayson, passar pela tenda do Festival, armada como ponto de convívio e palco para pequenos espectáculos na praça florida da Câmara Municipal, e chegar ao recanto onde tinham sido montados ao ar livre um palco e uma plateia de bancos corridos para o momento de abertura do Festival. Depois de umas breves palavras de saudação por parte da equipa organizadora, a actriz Ulla Tapaninen cantou, acompanhada por um quinteto de mulheres, todas de vermelho, tangos e canções com letras suas, Kati Outinen, famosa pelos filmes de Kaurismäki, leu um texto sobre o significado do teatro, um grupo de jovens exibiu as suas acrobacias circenses e um actor, todo de branco, veio terminar, mais uma vez com um tango, a cerimónia. 

Cerimónia não seria aliás a palavra adequada aos vários actos formais do Festival, como foi a recepção oferecida pelo Presidente da Câmara logo a seguir à inauguração ou as conferências de imprensa, que se realizavam todas as manhãs no edifício junto à estação, onde estava sediado o Festival. Cumpriam-se formalidades, mas sempre com natural simplicidade, em ambientes calmos e descontraídos, proporcionados certamente também pela concepção harmoniosa dos espaços, salas com proporções certas, móveis de linhas claras, a madeira das florestas finlandesas como nota dominante, a lembrar a ligação ali ainda tão próxima à natureza. Na Câmara Municipal, espalhámo-nos pelas salas e sentámo-nos às mesas de antepassados como numa festa em casa de família. Nas conferências de imprensa, autores e encenadores levantavam-se e falavam sobre os espectáculos que iam apresentar nesse dia, num canto uma mesa com café e bolos, folhas policopiadas resumiam em inglês os assuntos das peças e havia sempre quem se sentasse ao nosso lado para traduzir o que se ia dizendo nessa língua não indo-europeia, pertencente às línguas do Norte da Sibéria, motivo de orgulho dos seus 5 milhões de falantes, mas também do seu isolamento. Embora se traduza muita literatura estrangeira na Finlândia, a literatura finlandesa é pouco traduzida para outras línguas e por isso quase desconhecida fora das suas fronteiras.

Entre os espectáculos do programa do Festival (de fora vinham, entre outros, Plastilin da Rússia, Tiny Dynamite do Reino Unido, Jimmy do Canadá e uma Electra de Espanha), não foi difícil escolher: queria conhecer sobretudo o teatro finlandês e poder trocar impressões e ideias com os amigos alemães Andrea Zagorski e Thomas Engel e Jukka-Pekka, eleito nosso guia e tradutor. Na revista sobre o teatro na Finlândia, publicado em tradução francesa e inglesa pelo Centro de Informação do Teatro Finlandês, encontrei os números sobre o sistema actual do teatro no país: para além dos 53 teatros totalmente subvencionados pelo Estado existem 23 teatros profissionais parcialmente subsidiados, a maioria com um quadro técnico e artístico permanente; quase metade do repertório é constituído por peças finlandesas, entre as quais 34% são peças novas; são vendidos 2,8 milhões de bilhetes por ano num país com 5 milhões de habitantes, números elucidativos da efectiva popularidade do teatro na Finlândia. 
No fim do Festival, podia complementar estes dados com a minha experiência de espectadora no terreno: há também o gosto pelo passado histórico finlandês, narrado nos romances dos autores clássicos, que são transpostos para o teatro (como a trilogia Debaixo da Estrela Polar de Väinö Linna ou o romance Sete Irmãos de Aleksis Kivi, que inspirou o famoso musical americano Sete Noivas para Sete Irmãos; há autores/encenadores a adaptar peças de autores estrangeiros do passado à realidade finlandesa actual (como Kristian Smeds com Woyzeck de Büchner e Reko Lundán com Tio Vânia de Tchekov) ou a retratar com humor a Finlândia perpassada pela tecnologia Nokia (como Juha Jokela em Mobile Horror); há autoras/encenadoras a escrever peças com uma sensibilidade particular para a situação da mulher num mundo que continua a ser dominado pelos homens (como Leea Klemola em Jessika e Laura Ruohonen em Rainha C). A presença crescente e determinante de autores/encenadores e actores/autores no panorama do teatro finlandês nos últimos vinte anos deve-se ao modelo de formação da Escola Superior de Arte Dramática da Finlândia, apresentado como sendo único na Europa. A concepção de base parece simples: todos os alunos, dos cursos de interpretação, encenação e dramaturgia, trabalham em conjunto ao longo dos quatro anos de formação cujo programa contempla, para além dos estudos teóricos, a escrita de peças logo a partir do 1º ano.

Os espectáculos

O primeiro espectáculo a que fui assistir, Debaixo da Estrela Polar, foi a melhor introdução ao teatro finlandês e à história da Finlândia que poderia imaginar. Num quarteirão com três teatros (onde mais tarde fui ver também Tio Vânia e Mobile Horror), esta peça estava no teatro maior e mais moderno, talvez com mil lugares, e apresentava, na história de três famílias de Pentinkulma, uma aldeia perto de Tampere, a história da Finlândia desde 1904 até ao início dos anos 50: os conflitos entre os proprietários das terras e os agricultores arrendatários que, na luta travada pelo direito à terra, se associam à greve geral na Rússia em 1905; as primeiras eleições para o Parlamento em 1907, com as mulheres com direito a voto, pela primeira vez no mundo; a independência da Finlândia em 1917; a guerra civil entre vermelhos e brancos em 1918; a derrota dos vermelhos, mais de 30 000 vítimas e um trauma nacional profundo; mais tarde a chamada Guerra do Inverno contra a União Soviética, terminada em 1940; a perda do território da Carélia, a expulsão dos seus habitantes e a continuação da guerra até 1944, agora ao lado da Alemanha, para reconquistar o território perdido. A peça segue o destino de três gerações, realçando o sofrimento e a perseverança das mulheres que vêem os filhos a morrer nas sucessivas guerras. Sentados em bancos corridos, num enquadramento todo em madeira, dezenas de actores esperavam a vez de desempenhar as suas personagens. Os tecidos escuros e pesados dos figurinos e a representação vigorosa corroboravam o dramatismo intenso da acção. Entre o público, preso a cada palavra, a cada gesto, via-se a comoção de muita gente a chorar em silêncio.

Em Jessika, pelo contrário, o público não parava de soltar sonoras gargalhadas com as cenas burlescas, e ao mesmo tempo pungentes, da família de Jessika, uma jovem de 14 anos, a viver as mágoas do seu primeiro amor. A linguagem forte utilizada pelas personagens, as situações grotescas e a representação do papel de Jessika, entregue a uma actriz corpulenta, a mais idosa de toda a companhia, suscitavam riso, mas também ternura, que nos longos minutos no escuro, em que Jessika se torna vítima da violência sexual do namorado, se transforma em ansiedade e silenciosa perturbação.

A Rainha C de Laura Ruohonen apresentava-se num registo muito diferente, como um conto poético, livremente baseado na vida da rainha Cristina da Suécia. Com música ao vivo e uma linguagem cénica depurada, realçando o valor simbólico de cores e adereços, a peça descreve, nas palavras da sua autora/encenadora, a jovem rainha do século XVII como “uma rebelde moderna que não se submete ao papel que lhe é oferecido – o papel de mulher, mãe e monarca feminina – e em vez disso constrói sem qualquer piedade uma nova identidade para si própria, rompendo com os limites da distribuição de papéis entre os sexos e o sentido de moderação, sem pensar nas consequências.” 

A assistir ao Tio Vânia na versão de Reko Lundán, sentada na nossa fila, sem guarda-costas e informalmente vestida, estava Tarja Halonen, a actual Presidente da Finlândia, a primeira mulher a ser eleita para este cargo. Como me contou Jukka-Pekka, também ela esteve em tempos ligada ao teatro, facto aproveitado pelos actores que, numa espécie de prólogo, se dirigiam ao público, expondo as suas opiniões sobre a actualidade deste Tio Vânia finlandês: a desigualdade entre a cidade e o campo, a acentuada desertificação sobretudo do Leste do país, abandonado por quem procura trabalho nos centros urbanos e industriais. Nesse teatro, no terceiro andar, estava curiosamente o Museu Lénine. O primeiro encontro com Estaline tinha sido ali mesmo, em 1905, no tempo em que Lénine estava exilado na Finlândia, organizando-se para derrubar o czar, o inimigo comum. Em Tampere, Lénine comprometera-se a honrar o direito dos finlandeses à auto-determinação mal a Revolução triunfasse.

O Woyzeck de Kristian Smeds era sem dúvida um dos momentos aguardados com mais expectativa. Encenado como um concerto rock, com o público em pé, no espaço amplo de um armazém junto da sede do Festival, écrans com as imagens em tempo real dos histriónicos músicos/performers, música de guitarras eléctricas e baterias muito amplificadas, o espectáculo era uma reescrita imaginativa da peça de Büchner em que as personagens surgiam tipificadas, transpostas para o contexto finlandês actual, para a região cada vez mais vazia e desesperançada do Leste. O Major, na bateria, gabava-se de conquistar todas as mulheres com a potência do seu carro, Marie trabalhava como mulher da limpeza num hospital e Woyzeck revoltava-se no fim, saindo de machado na mão. Nos écrans ficavam as imagens em directo da fúria com que ele se lançava a destruir os carros estacionados no exterior. Nessa noite, talvez ninguém estranhasse essa fusão entre realidade e ficção. Era a longa noite de teatro e a cidade estava especialmente agitada: havia acrobatas a trepar pelas paredes das casas e pequenas representações por todo o lado, nas saunas, nas ruas e em muitos outros espaços não convencionais.

No último dia do Festival, assistimos de manhã à passagem de testemunho da equipa organizadora. A nova equipa, composta pela autora/encenadora Sirkku Peltola, por Jukka-Pekka e pela encenadora Maarit Ruikka (que com ele transformou o autor alemão Oliver Bukowski num autor de culto na Finlândia) foi saudada com flores, fotografada pela imprensa e incumbida de programar um festival ainda mais interessante para 2004. De volta a Helsínquia, deixando a cidade entre os lagos para trás, restava-me sonhar em voltar para o ano.

Hiperligações em inglês:

 

 

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actualizados 18-03-2008


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