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100 inovações sociais - Pesca no gelo - Embaixada da Finlândia, Lisboa : Actualidades

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Notícias, 10-02-2017

100 inovações sociais - Pesca no gelo

A segunda inovação social na serie dos artigos das inovações sociais que apresentamos é a pesca no gelo. Uma prática milenar, que demonstra que o inverno nunca constituiu um obstáculo aos finlandeses continuarem a praticar aquilo que mais gostam e necessitam, quanto muito apresenta apenas alguns desafios na sua realização.

A camada do gelo que cobria a região da Finlândia na era glacial retirou-se há 9.500 anos, formando a bacia Saimaa-Pielinen. Os caçadores ugro-fineses que chegaram à região há 8.500 anos entenderam a importância da pesca para a sua sobrevivência. De acordo com descobertas arqueológicas, os povos ugro-fineses faziam anzóis usando madeira e osso há pelo menos 4.000 anos atrás. Pesos para anzóis encontrados nas áreas habitadas na Idade da Pedra mostram que os habitantes já sabiam aproveitar a combinação do peso de um pedaço de pedra a um anzol pontiagudo e uma vara. Lanças de pesca afiadas também foram encontradas em áreas habitadas há mais de 5.000 anos atrás. Materiais naturais como a urtiga e veias ou fios de caudas dos animais foram provavelmente usados como linha naquela época. A ponta de uma picareta de gelo feita com osso de alce testemunha que os pescadores da época não interromperam as suas práticas nem mesmo nos períodos do ano em que a camada de gelo cobria as águas.

Foto: Bonin von Wolker

A prática da pesca no inverno tem uma história milenar, mas são sem dúvida as últimas décadas que têm visto o número de praticantes aumentar dramaticamente, tanto em termos absolutos como relativos.

Sabe-se que os cossacos russos praticaram a pesca no gelo no seu estilo moderno já no século XIX. Na Finlândia, a pesca de bacalhau e de perca no inverno tem sido praticada profissionalmente há séculos. Em sua biografia, Herman Kaufman descreve as suas experiências na Baía de Hatanpää, na cidade de Tampere de 1864 a 1866. Kaufman conta como nas manhãs de inverno os trabalhadores e os burgueses da cidade se juntavam para pescar, ou, segundo as palavras de Kaufman, para “ficarem horas agachados no gelo em função desse passatempo bastante entediante”. Segundo Kaufman, todo mundo ficava parado no gelo, cada um no seu lugar, e ninguém parecia apanhar nada. Os trenós foram usados como assentos, e, segundo o autor, tornaram-se especialmente úteis no final do dia quando os empregados vinham buscar os seus patrões e precisavam empurrar os burgueses cansados de volta para a cidade. Acredito que o uso das picaretas para fazer os buracos no gelo tenha sido também responsabilidade dos empregados. No entanto, Kaufman enganou-se quanto a sua avaliação sobre a importância social da pesca no gelo para o futuro. Segundo o autor, “Esse desporto saudável, divertido e prático, que ajuda a suportar os maçantes dias de inverno, provavelmente se tornará antiquado. Os tempos mudam e nós mudamos com eles.”

A pesca no gelo sempre teve, também, adversários. O Grão-Ducado da Finlândia editou em 1902 um decreto para regularizar a prática da pesca e proibiu o uso das iscas utilizadas na pesca no gelo alegando que estas danificavam os peixes. Nessa época, usavam-se iscas de anzol fixo, que prendiam o corpo do peixe do lado de fora.

A palavra para pesca no gelo em finlandês, pilkki, foi emprestada do sueco nos anos 1950. A pesca com linha e anzol alastrou-se pelo país antes da Segunda Guerra Mundial, e as práticas desenvolveram-se rapidamente depois da guerra. Entre os factores que contribuíram para a popularização da pesca, vale a pena mencionar a influência dos refugiados oriundos da região da Carélia, a divisão mais clara entre o trabalho e o lazer a partir da era da industrialização e a nova legislação que estabeleceu a pesca com linha e anzol como um direito de todos no âmbito do conceito de livre acesso às terras. Para os homens que tinham lutado pelo país na guerra, a pesca era um passatempo bastante popular, com direito a boas doses de álcool para aquecer o corpo durante as longas horas de espera no gelo.

Um direito de todos

A maioria das áreas aquáticas é de propriedade particular e administrada pelas autoridades regionais de pesca. Antigamente, perdia-se muito tempo com a burocracia para a obtenção da licença de pesca. Especialmente nos anos 1950, os pescadores gastavam mais tempo tentando conseguir tais licenças do que pescando. A criação das associações de pesca e de pesca no gelo facilitou a obtenção das licenças, assim como serviu para defender os direitos daqueles pescadores que não possuíam terras ou águas próprias.

Foto: Martti Lintunen

Na sociedade finlandesa nunca faltou persistência nem para defender, nem para resistir a uma causa. Quando o sistema de licenças regionais de pesca foi estabelecido em 1982, alguns temeram que ele resultasse na declinação dos estoques de perca e acabaria com as saunas particulares nas beiras dos lagos. Igualmente, os adversários da Lei da Pesca de 1996 temeram que a lei tivesse efeitos catastróficos sobre o direito à propriedade particular e sobre a constituição Finlandesa. Em 1982, a Comissão de Constituição teve que fazer uma declaração constatando que “o direito exclusivo de pesca vinculado à posse de uma área aquática é uma forma bastante particular de propriedade”. De facto, é difícil imaginar que tipo de consequências catastróficas a pesca com linha e anzol ou a pesca no gelo – as duas incluídas no direito de livre acesso às terras – poderiam ter para os proprietários das áreas aquáticas em questão. Tampouco tem o nosso sistema social desmoronado por causa desse tipo de pesca. Na verdade, do ponto de vista das políticas rurais, existem enormes possibilidades para serem aproveitadas em termos de pesca recreativa ou turística. As competições de pesca no gelo organizadas entre grupos de colegas de trabalho ou famílias também são bastante populares.

A pesca no gelo, como qualquer outro desporto, está a seguir as tendências modernas e a transformar-se num passatempo cada vez mais tecnológico. Não seria difícil imaginar como os equipamentos existentes hoje teriam assustado os pescadores do século XIX. No entanto, o que encantou os praticantes dos séculos passados e que continua encantando os praticantes modernos é essencialmente a mesma coisa: o silêncio do momento quando no mundo só existem você, a vara e a vastidão de gelo ao seu redor ou ainda, o momento das conversas e reflexões sobre a vida com os seus colegas de pesca, cada um agachado em frente aos seus respectivos buracos abertos no gelo, compartilhando a magia do momento.

Texto por: Kari Rajamäki, Ministro dos Assuntos Interiores 2003–2007

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actualizados 10-02-2017


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